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"Santo António - O Casamenteiro de Lisboa" é um filme de "reflexões"

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"Santo António - O Casamenteiro de Lisboa" é um filme de "reflexões" (Foto: Reprodução)

Apesar de ter nascido em Paris, Ruben Alves não deixa de ter bem presente a sua 'costela' portuguesa. Filho de pais emigrantes - a mãe cresceu nos arredores de Lisboa (apesar de ser natural do Norte) e o pai é de Guimarães -, o realizador sempre esteve esteve ligado a Portugal, até porque era o seu destino de férias em família. 

 

Os pais regressaram, entretanto, a Portugal, mas Ruben Alves permanece dividido entre terras francesas e terras lusas. No entanto, estes últimos tempos foram passados em Portugal por causa do seu novo filme,  "Santo António - O Casamenteiro de Lisboa", que chega às salas de cinema já esta quinta-feira, dia 10 de setembro. 

Em conversa com o Notícias ao Minuto, o realizador - que tem já lançados outros filmes como "A Gaiola Dourada" - explicou também que tem "uma base em Lisboa já há muito tempo", até porque, conta, entre os seus projetos tem a produtora Bombom Filmes e a Imagina Produções. 

Ao falar deste novo trabalho, "Santo António - O Casamenteiro de Lisboa", que foi rodado em Lisboa no ano passado, Ruben Alves partilhou que sabia desta tradição tão portuguesa e achava-a "interessante", embora não fosse um espectador assíduo.

“É uma tradição que existe há anos e achei super moderna, [sobretudo pelo facto de] já naquela época, nos anos 50, filmarem as pessoas - a preto e branco - e acompanharem a união, o casamento, entrar na intimidade das pessoas ao filmá-las", enalteceu ao recuar ao passado dos casamentos de Santo António. 

Na verdade, "é o que está a acontecer hoje em dia com os reality shows e as redes sociais", realçou. "E é uma coisa que, se calhar para alguns, é vista como algo vintage", completando que sentiu que "pegar na luta de dois casamenteiros a tentarem ser modernos" para manter os casamentos era uma ideia "interessante".

"Esta tradição parte de um propósito muito genuíno, ou seja, de criar um sonho, de unir as pessoas. E hoje em dia, com esta sociedade cada vez mais individualista, é um desafio. Mas o que é interessante é que, pelo menos em França - aqui não sei as estatísticas - os jovens querem cada vez mais casar-se. Com esta perda de identidade, os jovens precisam de se agarrar a alguma coisa, e não estava à espera", comentou ainda.

De referir que o filme "Santo António - O Casamenteiro de Lisboa" mostra-nos a luta de Carmo e Valentim [personagens de Rita Blanco e Joaquim Monchique, respetivamente], funcionários da Câmara Municipal de Lisboa com mais de 25 anos a organizar esta tradição, que recebem um ultimato. Precisam de modernizar este acontecimento anual e fazer dele um sucesso ou correm o risco de serem demitidos, uma vez que a Stardust, um grupo francês, irá passar a gerir o evento. Ao longo do filme, destaca-se sobretudo a ideia de que "Lisboa e as suas tradições não estão à venda".

Leia abaixo a entrevista completa a Ruben Alves.

Além de pegar numa tradição portuguesa, o filme também aborda outros temas. Por exemplo, é também uma "crítica" ao crescente turismo e como manter a identidade de um país? O que o levou a abordar outras questões além da tradição dos casamentos de Santo António? 

É uma observação, um facto do que está a acontecer, que [Lisboa] é uma cidade em movimento que está a mudar pelo bem, pelo mal. E como é que agarramos nisso? É uma observação, mas não é uma crítica de: "Ah, os culpados são estes". Não é isso. Cada um de nós tem de fazer alguma coisa. O imobiliário está caríssimo e achamos genial vender a nossa casa por um balúrdio... Sim, mas isso é no momento. Depois, daqui a cinco, dez anos, o que é que vais fazer? Vendeste a tua casa, tudo bem, e agora vais onde?

Há um encantamento porque este movimento é muito pelo dinheiro. Estamos numa sociedade cada vez mais capitalista e, de repente, procura-se rapidamente aquela coisa do profit

Há um encantamento que pode estar a influenciar esta mudança? 

Completamente! Há um encantamento porque este movimento é muito pelo dinheiro. Estamos numa sociedade cada vez mais capitalista e, de repente, procura-se rapidamente aquela coisa do profit. É bom, mas espera, olha para trás e para frente, pensa no futuro. O que é que queremos? Como é que queremos viver? O que é que queremos para nós? Esse desafio é interessante, e sobretudo para a nova geração: como é que conseguimos estar no flow da modernidade e desta mundialização e salvaguardar algo que é de cada um, a identidade, que é nosso.

Continuar a evoluir sem perder a identidade? 

Exatamente! Evoluir, mas não mudar para se conformar ao resto do mundo que está a ser muito uniformizado. Perde muita graça. Porque de repente se vais para uma cidade e vês tudo igual noutra cidade, já não tem graça nenhuma.

E há outras questões no filme em que, por outro lado, há uma necessidade de evoluir, como por exemplo quando mostra o casal homossexual e o facto de o padre não querer casá-lo. 

Completamente, e é uma realidade nos casamentos de Santo António, é um tema. Com o cinema pode-se abordar isto desta forma, a luta da personagem Carmo, da Rita Blanco. Gosto muito de falar de identidade - há todas as formas de identidade, e hoje em dia cada vez mais e com a liberdade de sermos quem somos, e acho ótimo. Mas, de repente, como é que fazemos isso? Ao longo do filme tens ali um cheirinho queer-friendly, que também traz uma nova geração que está muito mais livre de assumir - e ainda bem.

Cada um faz como pode com as armas que tem. São reflexões em todo o lado do filme

No filme temos essa liberdade, mas também há solidão [de algumas personagens] e uma falsa liberdade. Há personagens que se escondem. Por exemplo, Valentim, que é interpretado por Joaquim Monchique, inicialmente ele quer acreditar que é uma pessoa bem resolvida, mas não é bem assim. Ainda há um caminho a percorrer? Ainda não há liberdade total?

Completamente! E cada um tem o seu processo, porque também se fala de gerações. Quando a personagem de Joaquim Monchique diz: "Será que somos modernos? Conseguimos ser modernos?" Isso é muito importante porque é um pensamento de querermos ser, mas depois há uma realidade de uma sociedade patriarcal.

Mas temos também o casal homossexual que aparece no filme. Neste caso, uma parte está completamente resolvida e outra parte ainda sofre com "repressão" da família…

Porque acho mesmo isso hoje em dia. Quer dizer, pelos menos à minha volta é isso que vejo. E também não é uma questão de geração. São reflexões. Cada um faz como pode com as armas que tem. É um tempo, também, e é um processo. Isto tudo são reflexões em todo o lado do filme.

Todos os temas que aborda no filme surgiram logo quando começou com a ideia original ou foram acrescentados depois?

Foram depois. Tinha a ideia de fazer o filme sobre os casamentos de Santo António, mas não podia acabar aqui. Dentro disso, o que é que vou agora [acrescentar] nas camadas que me interessam - na identidade, no percurso emocional de pessoas, de uma época... Foram várias camadas e isso foi o trabalho que desenvolvi com o Fernando Pérez, o coguionista. Cada um a pensar em fazer acontecer várias emoções neste filme.

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