"Prémios são importantes e já temos muitos, mas o que fica é a história"
...
O Festival F arranca esta quinta-feira, dia 3 de setembro, com três dias de vários concertos no Sul do país, mais precisamente em Faro. E os The Gift sobem ao palco na sexta-feira, 4 de setembro.
O músico fundador e compositor da banda, Nuno Gonçalves, conversou com o Notícias ao Minuto dias antes do espetáculo, tendo falado sobre o mesmo, mas tendo também havido espaço para recordar o percurso do grupo, cuja "notoriedade foi construída a pulso". A evolução da indústria com a qual, confidencia, "não se identifica, estando "muito desligado", foi igualmente um tema abordado.
Igualmente em conversa com o Notícias ao Minuto, a organização do evento musical destacou que "o F é um festival de características únicas, não só pelo que já representa para a música portuguesa e para a afirmação cultural da cidade e da região, mas também por acontecer num cenário único e que é a zona mais nobre da cidade, a Cidade Velha, em que o património arquitetónico e cultural edificado convive paredes meias com a Ria Formosa".
"Já tivemos cerca de 600 concertos em 11 edições e todos os anos tentamos traçar uma nova «radiografia» da música portuguesa, de uma forma eclética de estilos e de reconhecimento público dos artistas", é notado ainda.
O festival conta com sete palcos, "desde o Ria que acolhe 15.000 pessoas até o palco Arco, que acolhe cerca de 100". E o objetivo da organização "é que cada pessoa, à sua maneira, tenha a melhor experiência possível, com segurança e conforto, e que leve boas memórias".
Além de ser uma "marca da cidade", também é uma "grande satisfação" para a organização "que as pessoas de fora, ou mesmo da região, descubram Faro porque decidem visitar o festival".
Desde a primeira edição que o Festival F "cresceu bastante". E, é explicado, "foram adaptando o festival aos recantos da Cidade Velha, sempre com um rigoroso respeito e preservação deste território único".
"Nas últimas edições, a capacidade do recinto tem-se mantido e estamos muito satisfeitos com esta dimensão e formato. Nesta fase, mais do que crescer, o objetivo é mesmo consolidar aquilo que conquistámos até aqui, procurando descobrir e abrir novos espaços ao público, mas não para aumentar a capacidade de lotação geral".
Este ano, além dos The Gift, o cartaz conta com nomes como Bárbara Tinoco, D.A.M.A, Àtoa, HMB, Chico da Tina, Nelson Freitas, Clã, Moonsepell, Caminho, Slow J, Papillon, Danni Gato, Maninho, Mind da Gap e Banko. Sobre a escolha do cartaz, "o objetivo e compromisso tem sido desde o início traçar uma radiografia da música portuguesa e daquilo que melhor se faz em língua portuguesa".
"Mas desde a sua génese que o Festival F procurou também dar palco aos projetos da região. E isso é algo que temos conseguido alcançar cada vez mais de edição para edição, não por quota mas por mérito. Nesta edição são cerca de 30 por cento de artistas algarvios", é destacado.
"Mas acreditamos sinceramente que o F tem contribuído para a criação e afirmação de muitos projetos da região, alguns dos quais começaram por atuar em palcos com menor lotação e já voltaram para atuar nalguns dos palcos ditos «maiores». É também um motivo de orgulho acompanhar essa evolução".
Há mais de três décadas com os The Gift, Nuno Gonçalves espera pelo público à frente do palco do Festival F no dia 4 de setembro, desejando que as pessoas "saiam de lá muito felizes" no final do concerto.
Leia a entrevista completa com Nuno Gonçalves:
Passados tantos anos em cima dos palcos ainda há algum ritual antes dos espetáculos?
Ritual se calhar é uma palavra demasiado forte e mística. Não um ritual. Cumprimentamo-nos uns aos outros, olhamos nos olhos, encaramos mais ou menos o alinhamento, porque geralmente nunca repetimos alinhamentos, falamos um bocadinho sobre qual será a atitude nas primeiras três, quatro canções… E entramos para dar o melhor. Não é um ritual, é um hábito.
Tratamos o concerto do Festival F ou no Alandroal, ou um concerto no Coliseu da mesma formaO que esperam deste concerto e o que gostariam que as pessoas levassem dele?
Ser os melhores da noite. Basicamente é isso que os The Gift querem ser sempre desde o início da sua carreira. Quando vamos tocar a um palco no Festival de F ou em Vizela, ou em Alcobaça, queremos que as pessoas saiam de lá com a sensação de que viram um grande espetáculo e que o melhor da noite foi ver os The Gift ao vivo.
Não desrespeitando as outras bandas, obviamente, mas o objetivo da banda tem de ser sempre dar o seu melhor e proporcionar a quem nos vê o melhor espetáculo possível. Não só a nível de entretenimento, mas também ao nível estético, musical. Tentamos tocar bem, apresentar o que os The Gift são em mais de 30 anos de carreira, que é muito. E não só tocar músicas tão conhecidas como os clássicos que tocam em todas as rádios, mas também músicas mais escondidas, mais lados B's, para dar um bocadinho a palete completa do que os The Gift são e o que foram durante estes últimos anos.
Acredito que atuar num concerto como por exemplo o Festival F seja diferente de atuar num Coliseu, que poderá ser um espetáculo mais "pensado". Mas ainda pensam neste tipo de concertos na perspetiva de dar a conhecer os The Gift a quem nunca vos ouviu ou, nesta fase da carreira, sentem que é mais importante ir buscar os temas que o público já conhece e quer ouvir?
Ambas. Em relação à primeira parte da pergunta, permita-me discordar. Nós tratamos o concerto do Festival F ou no Alandroal, que é no dia a seguir, ou um concerto no Coliseu da mesma forma. Há um espetáculo pensado ao minuto, o alinhamento é pensado consoante o público que vamos apanhar à frente, o espetáculo de vídeo também. Pensamos nos espetáculos todos como se fossem o último. Claro que uma produção de Coliseu…
Não me identifico com esta indústria, não me identifico com o sucesso imediato, com a música apenas e só como meio de entretenimento rápido. Estou muito desligado da indústria
Exato, a preparação…
Ou se for um concerto gravado para um DVD, claro que tem outro tipo de preparação, e neste caso a produção costuma ser sempre nossa, as bilheteiras, os lugares, o som, a luz… Isso envolve uma produção um bocadinho diferente. Mas a pensarmos o espetáculo, o conceito, a cor, o que vestimos, tudo isso é pensado ao milímetro para todos os espetáculos dos The Gift.
Em relação aos alinhamentos, neste momento, com 30 anos de carreira, temos de pensar nas duas coisas. Primeiro, tratar bem quem nos conhece há muitos anos e sermos excitantes o suficiente para quem nos está a conhecer pela primeira vez. Um miúdo que tenha hoje 23, 24, 25 anos não nasceu a conhecer os The Gift. É natural que estes espetáculos também sejam importantes para conhecer.
Se houver algum miúdo que está na plateia e que queira fazer uma banda depois dos The Gift terem tocado, é sinal de que o nosso trabalho foi bem feito. É mais esse o nosso objetivo do que propriamente dar a conhecer. É um bocado motivar quem nos vê pela primeira vez.
O que é que ainda vos surpreende (em palco e na música em geral) depois de tantos anos ligados a esta indústria?
A indústria não nos surpreende nada. Tenho uma relação com a indústria muito distante - cada vez mais. Não me identifico com esta indústria, não me identifico com o sucesso imediato, com a música apenas e só como meio de entretenimento rápido. Estou muito desligado da indústria.
Em relação ao que nos surpreende, é o poder da música, que é muitas vezes isso que a indústria esquece. A música salva, cura, une, aproxima. Também faz sofrer, rir, mas é o poder da música. Não só o sentimento que passamos para as pessoas que nos veem, mas também o sentimento que temos quando tocamos as nossas músicas em palco. Pode haver um refrão que já tocamos há 30 anos e que no Festival F nos soa de maneira diferente, que nos faz emocionar e fazer com que o coração bata mais forte. É sempre o poder da música que nos motiva, e há de ser sempre esse.
No dia em que sejamos como a indústria, em que a música é só um veículo para chegar a pessoas, aí já não faz sentido termos uma banda.
É muito difícil hoje em dia, através da indústria como está neste momento organizada, fazer carreiras cimentadas
Sente que hoje em dia é mais fácil chegar ao público - sobretudo devido às plataformas de streaming, redes sociais, etc. - mas mais difícil de construir uma carreira?
Sim, acho que partir do momento em que uma banda se dá a conhecer por um minuto de TikTok, não se espere que a emoção que possa suportar uma carreira de 30 anos seja igual a uma banda que toca há 30 anos. É diferente.
O que a indústria não faz - e continua a não fazer - é ser um polo de veracidade para com os artistas. Ou seja, é muito difícil hoje em dia, através da indústria como está neste momento organizada, fazer carreiras cimentadas.
É muito difícil porque é tudo muito efémero. O importante é o imediato, o rápido. E muitas vezes uma construção que é feita muito depressa, tende sempre a cair mais rapidamente do aquelas que têm alicerçadas - já nem falo de talento para não ser presunçoso - em trabalho, constância, álbuns, conceitos… Em carreira ao fim ao cabo.
Por outro lado, a experiência também pode por vezes roubar alguma "espontaneidade", ou sente que isso não acontece?
Não acontece porque o meu amor continua a ser a música. E enquanto o meu amor continuar a ser a música, se não tiver espontaneidade com o meu grande amor, não tenho espontaneidade com mais nada, sou basicamente um ser morto que respira, mas que não tem vivacidade nenhuma. Ainda me excito todos os dias com a música, ainda me excito todos os dias por um concerto novo. No dia em que isso não acontecer, é arrumar os instrumentos e não fazer uma banda.
Sempre fomos muito meticulosos na música que ouvimos, na música que criamos e essa continua-nos a emocionar. Portanto, não me vejo a não gostar de música.
Mas vê hoje em dia os The Gift com outra responsabilidade?
Responsabilidade é uma palavra um bocadinho estranha. Não tenho responsabilidade de nada. A minha responsabilidade é fazer a música que gosto e depois esperar que os media falem dela, que as rádios passem e que a mensagem chegue às pessoas.
A notoriedade foi construída a pulso, com muitos concertos, festivais, com muitos anos, muitos discos, canções
Quando falo em responsabilidade falo também de uma outra notoriedade ao fim de tantos anos, outra presença.
Sim, a notoriedade foi construída a pulso, com muitos concertos, festivais, com muitos anos, muitos discos, canções. Se temos responsabilidade... Temos mais responsabilidade para connosco. Motivar-nos com um disco novo, por exemplo, que é uma coisa que estamos a tentar fazer neste momento. Isso é a grande responsabilidade dos The Gift. A responsabilidade para com as pessoas que trabalham connosco. Isso sim, do ponto de vista mais empresarial, se quisermos falar.
É importante termos a agenda cheia para que alimente todas as pessoas que trabalham em exclusivo connosco e depois também temos alguma responsabilidade para com os fãs dos The Gift, que são aquelas pessoas que estão sempre à espera de mais. Mas a maior responsabilidade é quando o Nuno, a Sónia, o John e o Miguel entram em estúdio para fazer um disco novo. Isso é que é a maior responsabilidade. Porque é aquilo que fica, na verdade.
Os prémios são importantes e felizmente já temos muitos, mas o que fica de uma banda é a história, são os álbuns. Ninguém se lembra do que é que o Paul McCartney levou vestido na estreia do "Sgt. Peppers", mas lembram-se do "Sgt. Peppers". O que fica é a obra, o resto é folclore.
Por outro lado, sobre a notoriedade de que estávamos a falar há pouco, com ela também vem um bocadinho mais de liberdade?
Sim, sim. Nós quando somos mais novos e quando temos ainda muito a provar, há sempre aquela ideia de ir atrás de tudo, de tentar tocar para toda a gente, ficar chateado quando não se marca um festival. Agora já não ficamos assim muito chateados.
A nossa carreira depende única e exclusivamente das pessoas que gostam dos The Gift, dos concertos que marcamos. E, felizmente, continuamos a marcar muitos concertos porque funcionam bem, porque as pessoas quando vão dão o tempo por bem empregue, na minha opinião. Isso é que é grande força motriz dos The Gift.
Fazermos concertos bons, não sendo já novos, também não somos velhos, quer dizer, estamos na flor da idade, acho eu, nos 40’s, portanto, no auge criativo, na minha opinião. Temos a Sónia no auge vocal, no auge físico… Estamos numa boa forma.
Há todo um encanto e um romanticismo que se perdeu, mas continuamos a ter amor pela música, e isso é o mais importante
Sente que, enquanto banda, que já não precisa de provar nada…
Temos de provar apenas a nós. Aos outros não.
Exato. Mas sente que essa liberdade acaba por deixar de lado as preocupações "comerciais"?
As nossas preocupações comerciais antigamente eram um bocadinho maiores porque tínhamos de fabricar os nossos discos, tínhamos de os distribuir, promover. Hoje em dia é tudo um bocadinho mais fácil. A música chega às pessoas.
[Antes], se quiséssemos que uma pessoa de Faro ouvisse os The Gift tínhamos de pôr discos nas lojas de Faro, tínhamos de tocar nas rádios locais, tínhamos de pôr um poster à porta da casa e da escola dela a dizer que os The Gift iam lá a tocar... Hoje em dia é um bocadinho mais simples.
Há todo um encanto e um romanticismo que se perdeu, mas continuamos a ter amor pela música e isso é o mais importante.
Quando se cria trabalho como o Amália Hoje, como é que se equilibra o respeito pelo original e a liberdade de reinventar? Tem-se sempre na cabeça o que pode ou não ser demasiado longe do original ou consegue-se libertar disso?
O projeto Amália Hoje é um parque de diversões, onde tu vais um dia, divertes-te imenso e voltas para casa. Os The Gift é a tua casa, o teu sofá, o teu quadro, é o candeeiro que compras e que fica muito bem naquele canto. É uma coisa para a vida.
Os Amália Hoje é uma coisa que me diverte imenso, em que sinto uma liberdade tremenda, tal e qual como um parque de diversões, quando se entra numa montanha russa. E claro, depois tem o lado artístico. Tento sempre respeitar a minha opinião sobre os temas.
Agora estou a fazer um disco novo dos Amália que sairá ainda este ano. Sinceramente, respeito o legado, mas não posso ter demasiado respeito, porque depois isso pode ser um handicap para não fazer aquilo que me apetece.
O respeito é uma coisa, e não falto ao respeito a nenhum poeta, a nenhum compositor, sobretudo à voz de Amália Rodrigues. E temos, felizmente, bons cantores connosco. Mas depois há um lado estético que quero inovar, obviamente. Quando se diz Amália Hoje, é hoje, não é ontem.
Leia Também: "Interligar personagem e voz para ser real é mais difícil do que música"