"Os álbuns que faço são como fotografias do momento. Já não sou o mesmo"
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"Wonder" foi o mais recente álbum que Papillon lançou, no ano passado, e que veio completar a trilogia que iniciou em 2018 com "Deepak Looper", tendo-se seguido depois "Jony Driver", editado em 2022.
Anteriormente, o rapper explicou que tentou "criar algo inspirado na metamorfose da borboleta, porque Papillon é borboleta em francês". Hoje, em conversa com o Notícias ao Minuto, destacou que "grande parte da mensagem que quer transmitir neste álbum é deixar-nos permitir dar passos na nossa vida sem ter as certezas", e que "a beleza de não saber também é algo mágico".
Além de falar da paternidade, o rapper português partilhou igualmente o seu testemunho no que diz respeito à saúde mental, destacando que "mesmo que as pessoas se sintam sozinhas", é importante perceberem que "existem opções".
Depois de em março ter levado o seu mais recente disco ao Coliseu dos Recreios, em Lisboa, agora é no palco do Festival F que vai incluir alguns temas deste "Wonder", e, acima de tudo, "fazer a festa com o pessoal do Algarve".
"Já tenho saudades de ir lá tocar. É um festival pelo qual tenho bastante carinho desde que comecei a carreira. Tenho tido a oportunidade de ir tocar em todos os álbuns que lanço. Lancei agora o terceiro e tenho a oportunidade de voltar ao Festival F para mostrar as minhas canções outra vez", partilhou durante a entrevista.
O planeado é que o público possa ouvir "um conjunto de músicas que foi lançando ao longo da carreira até agora", mas sem esquecer o "Wonder". "Vamos tocar aquelas que achamos que fazem jus ao álbum e que ajudam a passar a mensagem do disco e do nosso espetáculo."
Leia a entrevista completa a Papillon:
Lançou “Wonder” no ano passado e já o apresentou no Coliseu dos Recreios, em março. O que vê de diferente em dar a conhecer o disco num palco como o Coliseu e agora levá-lo a um concerto como o Festival F?
É diferente, temos menos controlo sobre os parâmetros do espetáculo. Mas é bom porque obriga-nos a adaptar e a tentar fazer com aquilo que temos as condições que o próprio espetáculo oferece. Quando estamos a fazer um espetáculo em nome próprio pintamos tudo ao nosso gosto, como queremos, e é muito mais prático conseguir apresentar uma ideia sem ter limitações de tempo, espaço, infraestrutura... A diferença principal é essa, mas acho que conseguimos passar a mensagem das duas maneiras.
E acredito também haja músicas que acaba por juntar num concerto como este, em ambiente de festival, mas que se calhar quando está a apresentar um álbum pode não incluir?
Sim, sem dúvida. Principalmente as músicas com um sabor um pouco mais introspetivo, mais de ouvir em casa sozinho. Essas reservamos para o espetáculo em nome próprio. Neste festival, tentamos fazer com que sejam mais músicas de festa para animar, para congregar.
É óbvio que tento meter um bocadinho daquilo que é a minha assinatura artística. Mas, ao mesmo tempo, o meu objetivo quando vou a um festival é animar o pessoal e quero que as pessoas saiam de lá o mais felizes possível.
Não sou obsessivo com o impacto, mas penso no que podem causar as canções que faço
Estive a ver algumas entrevistas, sobretudo a propósito deste último álbum, e percebi que está numa nova fase, que não está tanto à procura da sua melhor versão, ou pelo menos já não tem isso como uma obsessão. Está a desfrutar da sua versão atual, da vida, da parentalidade, da música, etc. Sente que chegar a este ponto deu-lhe uma certa liberdade e paz que até então não existia, ou simplesmente mudou aquilo que queria deixar para trás?
Nunca tenho respostas definitivas para as coisas, é sempre o que estou a sentir neste momento e o que aprendi até agora.
Encontrei paz na imperfeição, no erro. Em desmistificar a exigência de que temos de ser uma versão perfeita, sem erros, sem falhas, sem imperfeições, para nos sentirmos valorizados connosco próprios, que - eu e as pessoas como eu - colocamos a nós próprios.
Até um certo ponto pode ajudar-nos a crescer e evoluir, assim como a educação dos nossos pais, por exemplo, que também querem o melhor para nós e, óbvio, vão ser também exigentes connosco. Depois traduzimos um pouco dessa exigência para nós próprios, mas também é importante perceber que somos seres humanos e que os erros vão continuar a aparecer, as imperfeições, e são apenas ferramentas para aprendermos e crescermos com elas.
Sinto que grande parte daquilo que aprendi até aos dias de hoje reflete-se neste disco e nesta fase que estou a viver, e principalmente com a paternidade. Desbloqueei emocionalmente um lado meu que permite esse espaço para errar e para crescer, porque estou a ver uma criança a crescer e a aprender com os próprios erros. E entender que a magia da aprendizagem do crescimento está exatamente nisso, no desequilíbrio e no equilíbrio, no erro e na aprendizagem. E corrigir quando não estamos tão alinhados connosco próprios.
Essa é a fase que estou a viver agora, é mais de me permitir viver em todas as versões sem encontrar uma que é ideal acima de outras.
Ao mesmo tempo, continua a querer inspirar as gerações futuras? Quando está num processo de criação, em algum momento lhe passa pela cabeça o impacto que a sua música possa ter ou apenas se foca no que significa para si?
Foco-me no impacto porque isso foi a razão pela qual comecei a fazer música. Quando falamos em impacto não é necessariamente uma coisa massiva, não tem de ser um impacto para as massas, mas desde que seja para a pessoa certa, porque nesta altura sou mais criador do que consumidor, mas já fui muito consumidor e a música já teve um papel na minha vida muito importante.
Sinto que esse valor que reconheci na música nessa altura é aquilo que tento replicar. Desde sempre que a minha música é feita com esse sentido de missão, de conseguir de alguma maneira transmitir os mesmos valores, os mesmos sentimentos, o mesmo esclarecimento que encontrei nas que fui ouvindo ao longo da minha vida.
Preocupo-me, sim, com o impacto que as minhas canções têm, mas parto sempre de mim, da minha experiência pessoal, da minha perspetiva, daquilo que sei até ao momento. E depois confiando um pouco que o que estou a passar cá para fora é algo - à falta de melhor expressão - positivo. Uma semente que as pessoas podem, de alguma maneira, plantar também em si, na sua vida e tentar colher algum tipo de fruto. Não sou obsessivo com o impacto, mas penso no que podem causar as canções que faço.
O hip-hop hoje em dia serve muito mais de base para sustentar outros géneros. Isso é uma excelente vantagem, porque permite que continue a ter longevidade
E enquanto criador e consumidor, como é que vê a evolução do rap, sobretudo em Portugal? O que é que se ganhou e o que é que se perdeu pelo caminho?
O que se perdeu é um pouco o reflexo, talvez, da maturidade do género e da capacidade que o género já tem de chegar às massas. Com isso, sem querer, perdemos um pouco daquela ingenuidade, pureza e energia de fazer mais por fazer e não tanto pelo resultado. Fazer pelo processo e pela vontade de nos expressar, e de nos afirmar, e não tanto pelos números, o alcance, ou pelo sucesso comercial.
Não estou a dizer que é uma coisa má, estou a dizer que perdeu-se um pouco disso, e isso foi um pouco o veículo que fez crescer o género. E era importante que se mantivesse. Fica quase sempre do lado dos mais novos, que estão nessa posição de aprender, de descobrir caminhos novos. Depois, do lado dos mais velhos, com um pouco mais de experiência, conseguir orientar ou, diria, trilhar caminhos que os mais novos podem fazer com um pouco mais de segurança - assim como eu também tive essa oportunidade através dos meus mais velhos.
O que é que se ganhou? Mais respeito da indústria musical no geral. Ganhámos mais abrangência a nível de onde é que o hip-hop pode chegar, não só enquanto género, mas também o alcance sónico. O hip-hop hoje em dia está misturado com tantos géneros diferentes.
Temos o caso do meu amigo Slow J, que fez um último álbum que se chama "Afro Fado". Estamos a pegar na ideia do rap, da música com essência africana e misturar com fado. O hip-hop hoje em dia serve muito mais de base para sustentar outros géneros. Isso é uma excelente vantagem, porque permite que continue a ter longevidade e faz com que nós, que já fazemos hip-hop e rap há algum tempo, tenhamos a possibilidade de continuar a crescer com o género.
De repente, eu não vou ser um miúdo numa fase da adolescência em que ainda não compreende o mundo e que quer mudar o mundo a todo custo. Já sou um adulto, com filhos. Mesmo que ainda seja a pessoa que quer, de alguma maneira, ter um impacto positivo no mundo, já tenho de contrabalançar com uma vida pessoal onde também estou a educar uma pessoa.
Já não há aquela coisa inconsequente de adolescência ou de ser jovem adulto. Agora existem consequências. Então, como é que vamos pesar essas duas coisas na balança? E isso é uma história. E essa história é o que depois permite explorar agora nesta idade - tanto eu como colegas de profissão que estão na mesma idade ou mais velhos, que estão num desafio diferente das vidas e das carreiras deles. É um pouco essa linha, esse testemunho que é passado de faixa etária em faixa etária, de conhecimento para conhecimento, que é uma das principais vantagens da longevidade que o género tem tido e nos tem dado.
Quero essencialmente que ela perceba que todos os álbuns que faço são de crescimento
Pegando na parentalidade, que está presente em músicas deste último álbum… Sente que acabou por ser responsável em grande parte por esta nova versão do Papillon? Levou-o a novas perspetivas?
Sem dúvida! É o tipo de experiência que só passando é que vais entender o quão impactante é, e o quanto mexe contigo, com a tua perspetiva de vida. Tornei-me uma pessoa muito mais densa, mais rica neste processo de paternidade. E faria todo o sentido transmitir o que aprendi com essa experiência.
Como é que gostava que a sua filha interpretasse este álbum um dia quando o ouvir?
Quero essencialmente que ela perceba que todos os álbuns que faço são de crescimento, como fotografias do momento. Estamos a tentar captar momentos da minha vida em que pensava de uma certa maneira, tinha um certo conhecimento, uma certa perspetiva de vida e que aquela pessoa, aquela entidade que está naquele disco, não é a mesma de disco para disco. Houve um crescimento. E há qualquer coisa para aprender com aquela entidade, mas não quer dizer que ainda sou e penso dessa maneira. Sou e penso, mas é um bocadinho como nas fotografias. Olhamos para as nossas fotografias e também nos reconhecemos nelas, mas já não somos aquela pessoa.
Quero que a minha filha retire - não só das canções mas tudo o que fizer a nível artístico – que são coisas para apreciar do momento em que estava a ser vivido na altura, coisas também para aprendermos algo, mas que se calhar ela vai ter uma real perceção do pai na vida real. No dia a dia, na convivência, nos momentos que vamos criar um com o outro, e que as músicas são só o sal e pimenta que vão ajudar a conhecer um bocadinho mais o pai.
Não tive essa oportunidade com os meus pais - de ter algo onde pudesse, quando quisesse, aceder e conhecê-los um pouco melhor, tanto psicológica como emocionalmente. A minha filha tem - pelo menos até agora - essa possibilidade.
Se calhar, quando ela tiver a idade em que eu fiz o "Deepak Looper", ou um bocadinho mais nova, vai aceder a isso de uma maneira diferente e vai perceber. Espero que não, mas talvez em algumas dificuldades que ela possa estar a ter, encontrar algum tipo de esclarecimento, porque, de alguma maneira, posso ter passado pelas mesmas coisas do que ela. É uma ponte para nos conhecermos um bocadinho melhor.
Mesmo que já não esteja aqui ou que não esteja presente, ela tem sempre uma possibilidade de conhecer um bocadinho mais o pai.
Sinto que precisava de ter as respostas para me sentir seguro, sentir que estava a ir no caminho certo. A beleza de não saber também é algo mágico
Até porque neste álbum aborda também a saúde mental, e no tema "¡OI RIO!", aliás, canta: "Tantas vezes tive p'a acabar e acabei por não ir até ao fim. Sempre soube que queria ser pai, mas não sei se quero ser pai assim". A parentalidade acabou por ensiná-lo a viver sem respostas?
Sem dúvida! Grande parte da mensagem que quero transmitir neste álbum é: permitir-nos dar passos na nossa vida sem ter as certezas. Isso foi durante muito tempo uma dificuldade minha, sou muito estratega na maneira de criar. Penso muito antes de começar sequer a ir para o papel ou para o microfone.
Durante muito tempo isso foi bastante produtivo para mim, mas com o passar do tempo, essa mesma característica de pensar demasiado tornou-me um bocadinho mais lento a produzir e a criar. E às vezes até demasiado parado. Essencialmente, é permitir-me fazer, criar sem ter as respostas. Sinto que precisava de ter as respostas para me sentir seguro, sentir que estava a ir no caminho certo. A grande mensagem deste último disco é: a beleza de não saber também é algo mágico.
Às vezes, confiar que somos capazes e que temos valor, e que mesmo se cometermos erros vamos aprender com eles, vamos continuar a fazer o nosso caminho.
Para tentar contextualizar, todo o meu progresso artístico até aqui era em busca de respostas. Tinha todo um conceito da escola da vida, ou seja, estás num sítio onde queres aprender, queres saber as respostas. E terminas esse ciclo com a conclusão de que não tens que saber todas as respostas. Isso é bom, porque permite que a tua vida também seja um mistério e que esse mistério vai alimentar o resto do teu caminho. Não precisas de saber as respostas todas e está tudo bem com isso. Isso também faz parte daquilo que tu podes considerar a tua melhor versão.
Outro tema do "Wonder" que se destaca no que diz respeito à saúde mental é a música "¡SOMOS!", onde canta: "Há 13 anos pensei na ideia de deixar de existir; Mas algo maior não foi capaz de me deixar desistir; Fez-me sonhar e sentir que ainda não era a minha hora. E fez-me ver o futuro que eu tou a viver agora". É uma exposição necessária, ou seja, falar destes temas de uma forma tão aberta, fazendo estas partilhas ajuda a que a saúde mental se torne cada vez mais um assunto "normal", para que as pessoas não se sintam sozinhas? A música é uma forma de chegar às pessoas e um bom veículo para ajudar a desmistificar temas mais fraturantes?
É, sem dúvida. Essencialmente porque, exatamente como disseste, há muitas pessoas que se sentem sozinhas. Há um paradoxo que vivemos na nossa sociedade hoje em dia: estamos super conectados com tudo, sabemos tudo sobre toda a gente, mas ao mesmo tempo vivemos nas nossas bolhas. Cada um tem as suas dificuldades e muitas vezes isso não é partilhado.
Mesmo que as pessoas se sintam sozinhas, existem opções. Eu estou a apresentar uma alternativa
Sabemos tudo e não sabemos nada.
Exatamente. Isso faz com que, às vezes, a única forma que as pessoas têm de se conectar é através destas coisas, de um filme, um livro, a música, que são coisas a que, como disse há bocado ao falar da minha filha, as pessoas chegam lá no seu tempo.
Às vezes é um filme que te ajuda a não te sentires tão sozinho. Às vezes é estares a ler um livro e, de repente, está ali uma personagem com quem te identificas a 100%, ou uma música. Sinto que estou a tentar contribuir um pouco para essa conversa. Sinto que é importante, nem é a tirar o estigma porque sei que vai ser sempre algo difícil de lidar, não deixa de ser algo íntimo. São coisas que as pessoas têm todo o direito de guardar para si próprias, mas ao mesmo tempo é importante entender que existem opções, acima de tudo.
Mesmo que as pessoas se sintam sozinhas, existem opções. Eu estou a apresentar uma alternativa e espero que existam outras para que as pessoas não se sintam tão sozinhas/isoladas. Que, de alguma maneira, isso contribua para que sejamos um pouco mais saudáveis.
Ao ajudar uma pessoa a sentir-se um pouco melhor, mais saudável, essa pessoa também vai conseguir contribuir melhor para a sociedade e, por defeito, vamos ter uma sociedade melhor. No fundo, todas as coisas estão ligadas umas com as outras, e é importante contribuir para isso.
Acredita que a música também o salva ou este pensamento é mais uma narrativa que "romantiza" estas questões?
Não tenho respostas para isso. Já pensei sobre isso, para ser muito sincero. Todas as coisas podem ser tóxicas. Sou muito apologista do equilíbrio, e acho que todas as coisas feitas com equilíbrio e com boa intenção vão trazer bons frutos. Acredito que sim.
É óbvio que se romantizarmos demasiado estes assuntos da saúde mental, criar quase um lifestyle... há pessoas que se calhar se vão agregar a este tipo de causas com outro tipo de intenções. Não é para isso que estou a contribuir. Por isso é que falo diretamente para as pessoas, para o indivíduo, e é algo que também não gosto de explorar muito quase como a pessoa que sabe tudo sobre isto.
Sou apenas um ser humano que passou por coisas, aprendeu com elas e transmite aquilo que aprendeu, sabendo que não estou a dar uma única resposta, "one size fits all", e que vai resolver todos os problemas da outra pessoa. É como teres um amigo que passou por algo e que está a contar-te o que é que aconteceu, como é que agora está numa posição diferente e até melhor do que estava antes.
É importante haver esse equilíbrio. Estou a tentar contribuir da melhor maneira possível, mas sim, também estou atento à possibilidade de isso se tornar algo tóxico para o resto das pessoas. Como já vi, sei que existe essa componente onde há pessoas que depois se aproveitam. É importante estarmos atentos a isso. Estou alerta, mas espero estar a contribuir de uma maneira positiva.
No meu caso, a música foi um dos lugares onde consegui sentir-me menos sozinho. Grupos de amigos foi o lugar onde encontrei esse afeto
Refletindo sobre a sua experiência, e partilhando um bocadinho mais o seu testemunho cru, o que acha que não o deixou desistir?
Sentir que não estava sozinho, acima de tudo. Às vezes estamos à procura de amor, de afeto em certos lugares que podemos considerar que são os pilares da nossa vida - normalmente os familiares mais próximos, pessoas que admiramos - e nem sempre o afeto está aí. Às vezes, está nos lugares mais improváveis.
No meu caso, a música foi um dos lugares onde consegui sentir-me menos sozinho. Grupos de amigos foi o lugar onde encontrei esse afeto. E às vezes até ajuda a que a nossa perspetiva mude, e quando muda, conseguimos resolver as relações que estavam mal resolvidas, ou as questões que estavam mal resolvidas noutros sítios.
Na juventude temos a tendência para fazer tudo o 8 e o 80, quando existe um problema parece que é o fim do mundo e que já não há solução. Às vezes as pessoas entram numa espiral e vão parar a um poço sem fundo. É importante que alguém ou nós próprios consigamos sair. Há pessoas que não conseguem, que demoram muito tempo e têm mais dificuldade. Mas essa ideia de conseguir sair desse lugar, desse abismo... Apesar de as pessoas não falarem tanto, é algo bastante comum nas nossas vidas, quase que faz parte do nosso crescimento enquanto seres humanos.
Às vezes, pelo facto de vivermos em sociedade, temos de projetar uma imagem, temos de estar com uma máscara, e para manter essa máscara não queremos transmitir as vulnerabilidades do nosso crescimento. Esse conjunto de fatores faz com que as pessoas, em vez de saírem do buraco onde estão, continuem a cavar ainda mais fundo até a um ponto onde já não têm retorno.
Depois desta trilogia tão pessoal que fecha com este álbum, o que é que quer que uma pessoa que o vá ver pela primeira vez ao Festival F perceba sobre o Papillon em 60 minutos?
Vai ser uma boa festa, em primeiro lugar. Depois, o rapaz que vão ver no palco e a banda - que também faz parte, somos uma equipa e adoramos fazer espetáculos - querem passar uma boa energia. A representação de estares em cima do palco parece o auge daquilo que é as nossas vidas, as carreiras e o sonho, mas estamos ali só a receber energia e a tentar transmitir energia da melhor maneira possível.
Assim como nós estamos na nossa ocupação a tentar dar o nosso melhor, o nosso objetivo é inspirar para que as pessoas, seja um padeiro, um professor, um médico, ou uma auxiliar de saúde possa sair de lá - e principalmente as crianças, os jovens, o futuro - com uma boa energia e que carreguem essa energia para as suas vidas. E que façam com isso o melhor possível.
Eu depois vou precisar de ir à padaria comprar um pão que foi feito com carinho e com amor. Quando estiver doente e for ao médico também preciso de ser tratado com a mesma energia. Quando levar a minha filha à escola preciso que a auxiliar a trate bem. É para isso que estamos a tentar contribuir. Este espetáculo é só, simbolicamente, o lugar onde vamos tentar passar essa energia.
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