"Nunca disse que fui o 1.º. Amo música eletrónica, do fado sempre gostei"
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Rúben de Almeida Barbeiro, mais conhecido pelo seu nome artístico Kura, deu a conhecer recentemente a sua versão do tema "Verdes Anos" de Carlos Paredes, que faz parte do álbum "Guitarra Portuguesa", lançado nos anos 60.
O DJ, que conta com mais de meio milhão de seguidores no Instagram e tem já também a sua marca bem vincada lá fora, conversou com o Notícias ao Minuto sobre este novo tema, que já não é uma estreia na combinação do fado com a música eletrónica.
Durante a entrevista, Kura navegou precisamente pelo mundo da música eletrónica, sobretudo pela profissão de DJ, não deixando de comentar estereótipos que ainda persistem e os desafios que esta carreira acarreta. Sempre com a salvaguarda, no entanto, de que "há profissões piores".
Quando pego na obra de alguém e tento aproximá-la do meu mundo mais eletrónico, tento respeitar ao máximo e não alterar aquilo que foi feito (...) Era um risco grande porque estamos em território quase sagrado, mas estava muito seguro daquilo que estava a fazer
Esta não foi a sua primeira experiência em juntar dois estilos musicais tão diferentes. Ainda assim, o que o atraiu especificamente neste tema icónico de Carlos Paredes para levá-lo para o universo do tech-house?
Sempre foi uma música que gostei muito, devido até à associação académica que a música sempre teve, muito ligada a Coimbra também. Foi uma música que sempre que ouvia me despertava uma emoção muito grande. E sempre disse que queria fazer algo com esta música, mas tinha de ser algo digno. Estamos a falar de uma das músicas mais importantes da cultura portuguesa, especialmente de um guitarrista como o Carlos Paredes. E não tinha chegado o momento exato daquela ideia específica, daquilo que queria fazer musicalmente, desta junção, que é um pouco inusitada.
Obviamente, sabia que havia muita gente que iria achar estranho, porque são dois géneros que, supostamente, não iriam conversar, mas que devido ao resultado e à receção das pessoas, vimos que resulta.
E tinha de encontrar, além disso, um guitarrista à altura de poder recriar a parte do Carlos, e que não é fácil, porque estamos a falar de um artista ímpar. Quando descobri o Diogo, percebi que era uma das músicas que costumava tocar, em homenagem ao Carlos, e decidi estender o convite e o Diogo aceitou. Ele é de Coimbra, e foi estudante da universidade, e veio até cá, até ao estúdio, para podermos gravar. Gravámos num dia e também consegui compor mais ou menos a música no primeiro dia. Depois, claro, fui trabalhando mais, mas foi um dia que guardo como uma memória muito positiva e estou muito feliz com o resultado final.
O tema tem, e como acabou de referir, a guitarra portuguesa que é muito ligada, de certa forma, à melancolia, à saudade, ao fado… Como é para si o processo de pegar nessa linguagem e conseguir transportá-la para uma energia de pista. Como gere a liberdade artística sem deixar de ter o devido respeito pela música original?
É exatamente isso. Quando abordo um remake, pegar na obra de alguém e tentar aproximá-la do meu mundo mais eletrónico, tento respeitar ao máximo e não alterar aquilo que foi feito, mas sim incorporar no meu mundo, fazendo com que isso possa ser o mais homogéneo possível. Foi o que tentei fazer aqui.
Melodicamente funciona muito bem, porque a música tem essa nostalgia, traz aquela carga emocional. E depois tem a parte da música eletrónica que traz aquela energia, aquela vibração, aquele êxtase, que é uma combinação fantástica.
Algumas das músicas que também toco de outros artistas têm essa característica - de ter as quebras um pouco mais emotivas e trazer um pouco de melancolia, e que depois culmina com a parte da música eletrónica que é algo mais enérgico, mais feliz para a pessoa se expressar mais, sentir. Foi esse o objetivo da música. Obviamente, sabíamos que era um risco grande porque estamos em território quase sagrado, mas estava muito seguro daquilo que estava a fazer.
Já tem outras versões ligadas ao fado que lançou anteriormente. Mas quando é que se deu esta ideia de criar esta união de diferentes estilos musicais? O que o fez perceber que esta fusão poderia funcionar? Teve alguma referência?
Já tinha abordado vários temas que estão muito presentes a nossa cultura e a nossa língua dentro daquilo que faço e dentro da música eletrónica. Exemplos são o "Sentir Saudade" com a Bia Caboz, "O Vento" com a Jessica Cipriano. Já está aí presente essa vertente de juntarmos a nossa cultura com a música eletrónica. Obviamente, não inventei nada.
Nunca disse que fui o primeiro. Música eletrónica faz parte da minha vida, é aquilo que amo e sempre amei. E do fado sempre gostei também
Mas quando começou a fazer estas criações já tinha alguma referência?
Não tinha nenhuma referência específica de algum artista que já tivesse feito isso. Em comentários, nos posts e tudo, as pessoas às vezes diziam que não fui o primeiro. E nunca disse que fui o primeiro, ou que sou o criador. Sempre foram dois estilos que gostei muito. Música eletrónica faz parte da minha vida, é aquilo que amo e sempre amei. E do fado sempre gostei também.
Gosto de músicas emotivas, o fado tem essa carga emocional. Sempre quis fazer algo com a nossa cultura, a nossa língua, que pudesse ser não só tocado aqui, mas também lá fora. Porque vai muito para além da língua, é um sentimento que estas músicas têm e a própria maneira como os cantores e os guitarristas tocam e cantam estes temas tem uma carga emocional muito grande. E quem as ouve, mesmo sendo de outro país que não entenda a nossa língua, percebe a mensagem e de alguma forma emociona-se. E esse sempre foi o objetivo.
A nossa maior preocupação era fazer algo que pudéssemos ouvir daqui a 5, 6, 10 anos e nos sentíssemos orgulhosos, e que não magoasse a nossa cultura.
Referiu agora o tema "Sentir Saudade", lançado há cerca de três anos, que também junta a música eletrónica ao fado. Quer, de certa forma, criar uma "assinatura portuguesa" dentro da música eletrónica?
Sem dúvida! O que um artista tenta sempre fazer é ter algo único, algo que possa exportar e dizer: "Olha, isto é a minha marca registada, é isto que faço". Os artistas portugueses têm essa vantagem "competitiva" em poder mostrar algo [o fado] que é só nosso.
Foi um orgulho, e é um orgulho ouvir nas pistas dança tanto o "Sentir Saudade" como "O Vento", ou "Verdes Anos", e poder colaborar com estes artistas que são incríveis – Bia Caboz, Jessica Cipriano, Diogo Mendes e muitos mais com que já tive a oportunidade de colaborar.
No caso do "Verdes Anos", criámos esta versão apenas para tocá-la ao vivo no RFM Somnii, onde atuei este verão na praia da Figueira da Foz. Era só isto, não tínhamos nenhum objetivo maior, nem sabíamos se íamos lançar, não estávamos preocupados com isso. Há muitas coisas que fazemos hoje em dia que é mesmo pelo amor à música, não é sobre um objetivo maior de monetização ou de tentar ter mais sucesso.
Se calhar esse tem sido o segredo, não metemos muita pressão naquilo que fazemos. Fazemos porque gostamos, porque realmente apreciamos. E depois de lançarmos o vídeo dessa atuação, achámos que ficou muito giro, aquilo depois viralizou, felizmente, e decidimos lançar.
Nestes últimos 3, 4 anos está a dar-se muito valor àquela portugalidade. É muito interessante, um motivo de orgulho
Ao longo destes anos todos em que está presente na música, e também olhando para o crescimento da música eletrónica, sente que hoje em dia há mais liberdade? Os artistas estão mais "soltos" dos rótulos dos géneros musicais?
Acho que sim, e mesmo hoje em dia nas festas que vemos a nível nacional, sejam elas de música eletrónica, etc., quando vemos alguns DJs a atuar, vemos essa mesma mistura - misturar música eletrónica com músicas portuguesas. O que é muito bom - mesmo com Xutos & Pontapés, Mariza, com músicas do momento de outros artistas mais pop. Mesmo os artistas pop hoje em dia misturam o fado com o seu próprio estilo.
Nestes últimos 3, 4 anos está a dar-se muito valor àquela portugalidade. É muito interessante, um motivo de orgulho. Se calhar há 10 anos era visto como algo negativo, não sei, fazermos essa mistura. Hoje em dia acho que é muito bem visto e sinto-me muito orgulhoso de fazer parte disso, de podermos estar a difundir a cultura portuguesa, a música portuguesa cantada na nossa língua, e fazer com que ela chegue mais longe. Fico muito contente com isso.
Ao fim de todos estes anos, sente que já conseguiu encontrar a sua identidade musical, ou está constantemente à procura?
Está constantemente em evolução. Sou um artista que gosta de se manter fresco, de ir beber de outras influências e de fazer aquilo que me desafia. Não gosto de ficar sempre na mesma tecla. Sei que hoje em dia, sobretudo, há uma tentativa de compartimentar os artistas em géneros. Parece que os artistas não podem sair daquela caixa, criar outras coisas e divertirem-se, colaborar com outros artistas.
Quando colaboro com outros artistas tenho a oportunidade de aprender coisas novas - a maneira como ele canta, a maneira como faz o arranjo, a maneira como projeta a voz... Vai haver sempre uma aprendizagem quando colaboramos com pessoas. E se houvesse essa barreira de eu ficar numa caixa, não poderia colaborar com ninguém porque não faz parte do meu universo. E tento ver ao contrário. Se não faz parte do meu universo, vamos trazê-lo para o meu universo, ou vice-versa, e tentar criar algo novo. Pode não correr bem, as pessoas podem não gostar, mas se não tentarmos, não desafiarmos as regras e as "leis da música"... E daí, às vezes, saem as criações únicas e diferentes.
Claro que não é fácil, mas há coisas muito mais difíceis, há profissões muito mais difíceis e não gosto de me queixar
Há alguns anos deu uma entrevista onde falou do grande desafio associado à sua profissão, que é a privação de sono, a falta de descanso, ou a alimentação, por exemplo. Hoje, ao fim de tantos anos na estrada, de atuações e de muitas noites, continua a ser igual? É possível conseguir mais "estabilidade" com o passar dos anos?
Obviamente que quando és um artista que tem a felicidade de ter muitas atuações no ano, tens de ser uma pessoa organizada e priorizar essa parte do sono para depois poderes criar ao mesmo tempo - não são só as atuações, também tens a parte do estúdio. Mas se foste organizado, consegues conciliar.
Claro que não é fácil, mas há coisas muito mais difíceis, há profissões muito mais difíceis e não gosto de me queixar. Há pessoas que fazem horários muito mais complicados. Tantas profissões que têm a vida muito mais complicada do que a nossa.
Temos a felicidade de fazer aquilo que gostamos e, claro, todas as profissões têm os seus pontos, pequenos pontos, menos positivos. E só temos de arranjar maneira de dar a volta a isso. Equilibrar com uma alimentação mais controlada, não beber, por exemplo, nas atuações, que é uma coisa que não faço, é raríssimo fazer. Tentar levar as coisas de uma maneira mais saudável possível sabendo que vamos ter alguns desafios. A estrada oferece sempre alguns desafios, sobretudo quando estou fora e tenho algumas atuações seguidas.
Estes anos de experiência ensinaram-me a lidar com isso de uma maneira mais tranquila e a não stressar. Saber que é viver o dia de cada vez, tranquilo, com um pensamento de que vai correr tudo bem. Não vale a pena estar a stressar.
E é um exercício fácil de se fazer no que toca a conciliar a profissão com a vida familiar?
Sim. Temos a felicidade de viver perto da nossa família, 20, 30 minutos. Se não der durante o fim de semana, vamos encontrar-nos durante a semana, almoçamos, jantamos. Temos uma família muito unida. Há profissões piores. Se calhar há pessoas que fazem horários de 12 horas, chegam a casa e não têm tempo para desfrutar, estar com a família. Eu estou cinco ou 15 dias fora, mas depois tenho uma semana inteira onde posso estar com a minha família e desfrutar. Não é assim tão mau quanto às vezes pode parecer.
É um estereótipo que vem dos anos 90. Hoje em dia, os DJs e artistas que estão no topo encaram as coisas de uma maneira mais profissional, e sabem que para estar no topo não podem brincar em todas as atuações e beber
Muitos associam esta profissão a consumos e excessos. Essa é uma realidade e é "inevitável" ou é um estereótipo que ainda persiste?
É um estereótipo que se calhar vem dos anos 90. Hoje em dia, os DJs e os artistas que estão no topo encaram as coisas de uma maneira muito mais profissional, e sabem que para estar no topo não podem andar a brincar em todas as atuações e a beber - e outro tipo de situações que nós bem sabemos. Não dá para estar a fazer isso porque depois a tua a carreira vai ter uma duração muito curta, o corpo não aguenta. Vais sempre pagar a fatura, seja a curto ou a longo prazo.
Depois, obviamente, é uma questão empresarial, não podemos ignorar. Nós somos uma empresa, isto é um negócio também. Temos a nossa família que depende de nós, os nossos amigos, a nossa equipa inteira. Temos de encarar isto com o máximo de profissionalismo possível e desfrutar daquilo - que é aquilo que faço. Para mim é um privilégio, nunca imaginei na minha vida que podia estar nesta posição.
Não vou dizer que não me divirto de vez em quando, que não bebo um copo, claro que sim, mas não pode ser em todas as atuações, senão alguém vai sofrer - ou é a atuação em si que não vai ter a mesma qualidade, não vou estar com a mesma vontade, depois se calhar não tenho a mesma disponibilidade de estar a falar com pessoas. Temos de estar disponíveis para as pessoas que querem estar connosco no fim da atuação, querem tirar fotografias e falar um bocado.
Também temos de dar a outra parte, o agradecimento para as pessoas acompanharem e apoiarem o nosso trabalho nas redes sociais, no Spotify, ouvirem, deslocarem-se aos concertos. Também temos de estar disponíveis para dar atenção às pessoas e estar lá no fim da noite. Faço sempre questão de tirar fotografias com todas as pessoas que quiserem tirar, ou estar ali um bocadinho a falar. Estou sempre disponível para isso com todo o gosto porque é um agradecimento da minha parte por essa dedicação.
Está completamente lançado lá fora, já atuou em diferentes país. Ainda este ano teve uma tour pela Ásia, tendo passado pelo Japão, Indonésia… Sente que a atuação pode mudar de país para país, ou a música é uma linguagem universal em todos os sentidos – até na reação/receção do público?
Tem essa particularidade: a música realmente é uma linguagem global, e diria que, se calhar, 95 % das músicas que toco aqui em Portugal consigo tocá-las lá fora, fazendo algumas alterações obviamente. Se calhar aqui toco 5, 7 músicas cantadas em português e lá fora diminuo um pouco porque a introdução tem de ser um bocadinho mais lenta.
Agora temos uma atuação na China no final de outubro e vou tocar "Verdes Anos", "Sentir Saudade", por exemplo. Gosto sempre de levar alguma coisa nossa para fora. Pode não haver uma reação muito grande ao início, mas está lá. Tenho de continuar a representar aquilo que gosto, aquilo que faço. Mas diria que sim, cerca de 95% das músicas que funcionam aqui, funcionam fora, até por causa das redes sociais. As pessoas estão atentas conhecem as músicas. É uma adaptação fácil.
A pandemia fez com que a própria indústria se alterasse completamente. Está tudo muito rápido, acelerado. O que é que é popular hoje, amanhã já não é
Até porque, por exemplo, no Instagram tem mais de meio milhão de seguidores, tem uma forte presença nas redes sociais. Isso faz mesmo diferença na sua carreira?
Faz, até porque aqueles números são completamente orgânicos. Tenho essa felicidade de as pessoas quererem seguir e estarem atentas, mas diria que há ali [comunidade] 50% portuguesa e 50% espalhada pelo resto do mundo. Ainda é uma fatia muito grande.
Algumas pessoas, às vezes, ficam um pouco chateadas de dirigir-me em inglês em alguns vídeos. As minhas páginas nas redes sociais não são só feitas por pessoas que falam português, são pessoas que estão no Japão, nos Estados Unidos, Inglaterra... Também gostava que essas pessoas tivessem acesso ao meu conteúdo e elas próprias dizem que não percebem português e que gostavam de entender o que é que eu estou a dizer. Não sempre, mas às vezes faço algumas comunicações em inglês para que essas pessoas também tenham acesso à informação.
Há dez anos imaginaria que estaria neste ponto da carreira neste momento? Foi um objetivo pelo qual lutou ou nunca lhe passou pela cabeça que iria estar onde está hoje?
Há 10 anos já fazia muita coisa a nível internacional. Diria que estava muito menos presente no mercado nacional. Não por minha opção, era algo que acontecia, atuava muito mais lá fora. E também por causa destas músicas que tiveram bastante sucesso acabei por ter uma reaproximação ao mercado português, algo com que fico muito contente porque adoro tocar aqui para o meu público, ter essa oportunidade, e sempre em festas muito boas.
Em 2016, tocava 70% ou 80% lá fora, fazia uma tour o ano inteiro, era algo diferente. Também a minha sonoridade era muito diferente, fiz uma grande mudança a nível daquilo que produzia e o que tocava também. Muito mudou desde aí, também durante a pandemia.
A pandemia fez com que a própria indústria se alterasse completamente. Está tudo muito rápido, acelerado. O que é que é popular hoje, amanhã já não é. Novos artistas a surgirem todas as semanas porque se tornam virais nas redes sociais e os promotores querem comprar. O desafio é manter-se relevante sem ter de cair em algo que eu não acredito - estar a tentar seguir a onda só por seguir e tentar fazer aquilo que está viral só porque está viral. Tenho de acreditar naquilo que faço.
E, obviamente, queremos exposição no nosso trabalho, porque quero continuar a fazer isto durante muitos anos e a um nível alto. Esse é o desafio, conseguir continuar a manter o nível alto, reinventar-me sem cair na tentação de fazer algo em que não acredito só pelos números das redes sociais.
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