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"Nova tendência para romantasy é mesmo um movimento. Nunca vi nada assim"

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"Nova tendência para romantasy é mesmo um movimento. Nunca vi nada assim" (Foto: Reprodução)

Antes de se tornar CEO da Penguin Random House, cargo que ocuparia de 2013 a 2022, Markus Dohle já tinha um largo passado ligado aos livros: distribuiu, imprimiu e produziu obras "praticamente em todo o mundo". Não estudou Literatura, mas o gosto pela leitura foi-lhe incutido pelos pais, que eram membros dos clubes da Bertelsmann, com presença em Portugal através do Círculo de Leitores.

 

Apesar de alguns indicadores menos positivos, entre eles o facto de as redes sociais continuarem a consumir a maior parte do tempo livre dos portugueses, o antigo líder da Penguin Random House assumiu, em conversa com o Notícias ao Minuto, que vê "luz ao fundo do túnel", mais concretamente "o túnel do digital e das redes sociais".

Em Lisboa a propósito do evento Book 2.0 #The Future of Reading, da Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL), o investidor e consultor frisou que "a leitura profunda gera empatia e valores humanos nas pessoas e, com isso, valores democráticos", o que contribui para "fortalecer e estabilizar a democracia", numa altura em que "voltamos a assistir a proibições de livros na América e a ameaças a jornalistas em países europeus e a alguns escritores".

Ainda assim, Markus Dohle não partilha do sentimento de que a Inteligência Artificial (IA) poderá vir a representar uma "ameaça existencial" para o setor livreiro, tampouco que livros produzidos integralmente a partir destes modelos venham a povoar as listas de best-sellers. Na sua ótica, será uma ferramenta que "vai ajudar-nos a acelerar o processo para levar as nossas histórias ao ponto de venda", apresentando "mais oportunidades para a indústria do que riscos". No entanto, um desses riscos prende-se precisamente com a salvaguarda dos direitos de autor, que "não estão a ser respeitados". "Na nossa indústria, tudo tem de começar com um ser humano e terminar com um ser humano", asseverou.

Há esta nova tendência entre os adultos para a "romantasy", numa faixa etária entre os 12 e cerca de 25 anos, em que vemos milhões de leitores a juntarem-se ao setor. É mesmo um movimento, nunca vi nada assim. Há milhões de novos leitores, especialmente mulheres, jovens, raparigas e adolescentes, a juntarem-se ao setor. Se se adquirir o hábito de ler nessa idade, normalmente torna-se um leitor para toda a vida

Como e porque é que se dedicou ao mundo editorial?

Na minha família, a educação e a leitura tiveram um papel significativo. Os meus pais eram membros dos grandes clubes de leitura da Alemanha, os clubes de leitura da Bertelsmann, que também existiam em Portugal, com o Círculo de Leitores. Agora, os clubes de leitura estão a voltar, assim como os grupos de leitura, o que é interessante; era o que estava na moda na época dourada após a Segunda Guerra Mundial. Portanto, a leitura, a educação e a ambição desempenharam um papel significativo na minha família, além de outras coisas, como o desporto e o exercício físico. Depois da universidade, comecei a estudar engenharia e gestão, engenharia industrial; não estudei Literatura nem nada do género. O meu irmão já estava na maior empresa de comunicação social da Alemanha e da Europa, a Bertelsmann. Juntei-me a ele e fui diretamente para o ramo editorial. Dirigi a distribuição e a cadeia de abastecimento de livros e, posteriormente, dirigi a impressão de livros praticamente em todo o mundo, em muitas gráficas na Europa Oriental, na Europa Ocidental, na América e na América Latina. Distribui, imprimi e produzi livros e, finalmente, após mais de 14 anos, a empresa disse: "Bem, agora podes fazer os livros." Por isso, enviaram-me para Nova Iorque, para dirigir a Random House, que fazia parte da Bertelsmann. Agora, é a Penguin Random House.

Como é que é possível que se leia muito mais hoje em dia – e mencionou que, a seu ver, haverá um "tsunami analógico" –, mas as redes sociais continuem a ocupar a maior parte do tempo livre das pessoas, de acordo com um estudo divulgado pela APEL? Acha mesmo que as pessoas estão cansadas das redes sociais? Acha que vão voltar-se para os livros?

Ainda é cedo para dizer que as pessoas estão a reduzir o tempo que passam em frente a ecrãs e, especialmente, nas redes sociais. Mas se for uma tendência sustentável, em que pessoas de todas as faixas etárias – e ontem [16 de setembro] vimos alguns números que indicam que isso está a começar a acontecer com as gerações mais jovens, que se afastam das redes sociais mais cedo e mais rapidamente do que as mais velhas –, penso que é uma enorme oportunidade para outras categorias de meios de comunicação e é uma enorme oportunidade para os livros e para a cultura da leitura. Apresentei dados a nível global que mostram que, todos os anos, o volume de receitas do setor está a crescer. Assim, as pessoas gastam mais dinheiro em livros do que no ano anterior. O mercado português está maior em mais de 40% do que em 2019, antes da pandemia. Portanto, há um aumento significativo na compra de livros. Esperamos, claro, que isso também se traduza em tempo dedicado à leitura. Há esta nova tendência entre os adultos para a "romantasy", numa faixa etária entre os 12 e cerca de 25 anos, em que vemos milhões de leitores a juntarem-se ao setor. É mesmo um movimento, nunca vi nada assim. Há milhões de novos leitores, especialmente mulheres, jovens, raparigas e adolescentes, a juntarem-se ao setor. Se se adquirir o hábito de ler nessa idade, normalmente torna-se um leitor para toda a vida. Por isso, estamos a observar tendências positivas nesse sentido. Também estamos a observar tendências positivas nos livros ilustrados e nos livros de capa dura para crianças, ou seja, na leitura precoce. Queremos inspirar os pais a ler para os seus filhos, porque tornam-se, desde muito cedo, leitores para toda a vida, mesmo antes de saberem ler.

Ainda temos um pequeno problema, e vemos isso em inquéritos em todo o mundo, naquilo a que chamamos de "middle grade", que vai dos 8 aos 12 anos, quando as crianças têm ecrãs nas mãos. Às vezes, perdem um pouco esse hábito, especialmente porque essa faixa etária é complicada. Queremos que os sistemas educativos ofereçam uma educação adequada em leitura e literatura. Vemos alguns desafios, mas vemos muitas oportunidades. Penso que esta onda analógica, de ler em formatos físicos, de voltar às livrarias e de ter uma experiência física de folhear livros, tenta, de certa forma, combinar o ato de ler, que é solitário, com a experiência de comunidade e de ligação, juntando-se e conhecendo pessoas com ideias semelhantes e com a mesma paixão pelo mesmo autor e pela mesma história. Vemos muitas tendências positivas: festivais de leitura, eventos com autores, feiras do livro, tudo a atingir níveis altíssimos.

Tenho muita esperança de que esta tendência seja sustentável e de que consigamos afastar todas as faixas etárias dos ecrãs e das redes sociais, porque estamos convencidos – e há dados científicos que o comprovam – de que, tanto do ponto de vista cognitivo e emocional, como de uma perspetiva social, será benéfico que as pessoas prefiram ler mais textos longos em vez de passarem mais tempo em frente a ecrãs e nas redes sociais.

Precisamos de tornar a leitura mais atrativa para os rapazes e para os leitores do sexo masculino de todas as faixas etárias. O áudio é uma oportunidade, porque é um bom formato de entrada para novos leitores. [...] É importante também porque os livros não só nos tornam mais inteligentes como, ao mergulharmos em histórias e personagens complexas, ao colocarmo-nos no lugar dos outros de forma profunda e durante muito tempo, sabemos que isso cria empatia

Mas há um ecrã ao qual as pessoas estão a aderir bastante: os e-readers. Qual a sua opinião sobre isso? Acaba por ser uma mistura de ambos, não é? É uma espécie de paradoxo.

Sempre disse que somos o que chamo de "agnósticos em termos de formato". Não dizemos aos nossos leitores em que formato devem ler ou consumir as nossas histórias, quer optem por um livro de capa dura ou de bolso, quer o descarreguem no seu e-reader, através do Kindle, do Kobo ou de outros fornecedores, ou quer ouçam um audiolivro, que é uma tendência significativa a nível mundial. Nos próximos anos, haverá um crescimento significativo em Portugal dos audiolivros, dos quais sou um grande fã, por muitas razões. Se pudermos fazer outras coisas ao mesmo tempo, isso dá-nos mais minutos para ler. Podemos correr, cozinhar e conduzir enquanto ouvimos um livro. Não devemos ler um livro em formato físico enquanto conduzimos, mas podemos ouvir um livro. Faz parte do nosso ADN; ouvimos histórias à volta da fogueira muito antes de sabermos ler. Por isso, o áudio é uma excelente opção. Não fazemos distinção de formatos, e também não fazemos distinção entre canais de venda. Não dizemos aos nossos clientes onde devem comprar os seus livros, quer recorram a uma cadeia de livrarias, a uma livraria independente ou encomendem o livro online. A decisão é deles. Quero vender o maior número possível de livros, quero chegar ao maior número possível de leitores, e os formatos digitais proporcionam-nos um alcance adicional.

Também levantou uma questão interessante, que não é nova, mas sabemos que as mulheres têm mais tendência para se interessarem pela leitura do que os homens. O que explica isso, na sua ótica?

Não disponho de investigação científica, nem de dados que o comprovem, mas a verdade é que, quando se analisa a força de trabalho do setor, vemos que é dominado pelas mulheres, em termos da percentagem total. E, do ponto de vista dos leitores, isso também é verdade. Acho que é importante e positivo que tenhamos oportunidades junto da população masculina, porque significa que poderá haver um efeito de recuperação. Precisamos de tornar a leitura mais atrativa para os rapazes e para os leitores do sexo masculino de todas as faixas etárias. O áudio é uma oportunidade, porque é um bom formato de entrada para novos leitores, e vemos que os leitores do sexo masculino adotam o hábito da leitura através dos audiolivros com bastante facilidade. Mais tarde, acabam por voltar a pegar num livro impresso ou num e-book. Isso é positivo. É importante também porque os livros não só nos tornam mais inteligentes como, ao mergulharmos em histórias e personagens complexas, ao colocarmo-nos no lugar dos outros de forma profunda e durante muito tempo, sabemos que isso cria empatia, valores humanos e valores democráticos. Acho que isso é algo que não devemos proporcionar apenas às mulheres; precisamos disso também na população masculina. Portanto, se queremos ter um efeito positivo na sociedade através de uma boa cultura de leitura, temos de chegar tanto à parte feminina como à parte masculina da sociedade, e temos de atrair mais homens para que se tornem leitores assíduos ao longo da vida.

Acho que o ato de mergulhar durante algum tempo numa história mais longa, aumentando novamente a capacidade de concentração e terminando um livro, será, nesta onda da tendência analógica, algo que fará as pessoas felizes quando, de facto, virarem a última página e fecharem o livro, da capa à contracapa. Vai provocar-lhes muitas endorfinas. Creio que vão sentir muito mais orgulho em dizer, "li este livro de capa a capa" do que, "não sou leitor e tenho orgulho nisso"

Mencionou o fenómeno da "romantasy". Como é que as editoras podem tirar partido desta onda e apresentar aos novos leitores os clássicos ou livros mais densos, que são frequentemente vistos como aborrecidos ou inacessíveis?

Cada editora tem de decidir: "Quero entrar nesse mercado?" Por ser tão popular hoje em dia há, naturalmente, também um número crescente de títulos, e mais editoras pensam: "Ah, queremos fazer parte dessa área em crescimento, por isso criamos uma marca editorial ou contratamos alguns editores para publicar livros de romantasy." Acho que é um movimento sustentável e espero que a maioria destes novos leitores jovens permaneça na indústria. Tenho a certeza de que podemos introduzir-lhes novas categorias, como os clássicos, porque também tratam de romance e fantasia.

Vi um vídeo no outro dia no qual um jovem questionava como é que as pessoas conseguiam sequer terminar um livro. Então, como é que se termina um livro? E, na sua opinião, porque é que as pessoas ainda afirmam, com orgulho, que não são leitores?

Penso que as pessoas de todas as faixas etárias começam a perceber que limitar-se a participar no ciclo das notícias de última hora, a percorrer e a deslizar o ecrã, não as vai fazer felizes. Também começam a perceber que isso, na verdade, as faz sentir mal e as torna viciadas. Há dados científicos sobre o assunto, sobre o que isso nos faz, a nível cognitivo e emocional, o que resulta nesta tendência analógica e nesta fadiga digital, o que é positivo. Afastarmo-nos dos ecrãs e das redes sociais é algo que pode, de facto, salvar-nos e tornar-nos muito mais felizes. A literatura fantástica para jovens adultos é um bom exemplo de que alguns jovens encontram prazer, entusiasmo e felicidade profunda ao regressarem aos textos longos, ao partilharem essa fogosidade por um autor e um livro, ao participarem em grupos de leitura, clubes de leitura, festivais de leitura, feiras do livro, ou ao reunirem-se à noite e lerem o mesmo livro com centenas de pessoas em silêncio, para depois conversarem sobre essa experiência e, mais tarde, darem uma festa. Portanto, todas estas tendências são muito positivas.

Acho que o ato de mergulhar durante algum tempo numa história mais longa, aumentando novamente a capacidade de concentração e terminando um livro, será, nesta onda da tendência analógica, algo que fará as pessoas felizes quando, de facto, virarem a última página e fecharem o livro, da capa à contracapa. Vai provocar-lhes muitas endorfinas. Creio que vão sentir muito mais orgulho em dizer, "li este livro de capa a capa" do que, "não sou leitor e tenho orgulho nisso". Chegámos a um ponto de viragem e vejo luz ao fundo do túnel, o túnel do digital e das redes sociais.

Enquanto editores, temos de garantir que proporcionamos à sociedade um fórum de vozes e opiniões, com uma gama diversificada de pontos de vista. E, por isso, o nosso coração e a nossa alma, a espinha dorsal da indústria, são a liberdade de expressão e a liberdade de escrever e de ler. Sabemos que a leitura profunda gera empatia e valores humanos nas pessoas e, com isso, valores democráticos. Assim, se nos concentrarmos na cultura da leitura e na cultura do livro num país estamos, na verdade, a fortalecer e a estabilizar a democracia

Os resultados do PISA em Portugal foram bastante preocupantes, especialmente no que diz respeito à leitura. Na verdade, os alunos portugueses tiveram um desempenho pior do que em 2000. As pessoas estão a ler mais, mas será que a qualidade do que estão a ler está a diminuir, não só em termos dos livros que estão a ser lidos, mas também na forma como estão a ser lidos?

É uma excelente pergunta. Acho que as tecnologias e a IA são, naturalmente, o próximo passo para que as pessoas deixem de ler. Podem até perder a capacidade de escrever um e-mail porque, de repente, a IA escreve todos os e-mails com base numa sugestão. Portanto, há a competência de leitura, há a competência de escrita, e ambas, tenho a certeza, estão sob pressão. Algumas pessoas falam inclusive numa leitura apressada e de folhear. Mais uma vez, a capacidade de atenção diminuiu de 150 segundos para 45 segundos nos últimos 20 anos, ou algo do género. Por isso, é muito preocupante. O resultado é que, independentemente do quanto leiam e da forma como o fazem, a qualidade da competência de leitura está a deteriorar-se. É isso que o PISA afirma. O que eu acho é que isto representa um apelo à ação para o mercado livreiro. Transformo isto numa narrativa positiva.

Temos de tornar a leitura e os livros mais populares do que nunca, e temos de trabalhar em conjunto: pais a ler para os filhos, escolas com uma educação adequada nas competências de leitura e na literatura, ultrapassar as primeiras experiências com ecrãs e levar à adoção de hábitos de leitura na idade adulta. Acho que temos aqui uma oportunidade e o futuro será brilhante para a leitura e para os livros. Sabemos que uma sociedade com uma cultura de leitura e de livros profundamente enraizada e de grande qualidade é uma sociedade que funciona melhor, onde as pessoas se compreendem mutuamente, é menos polarizada e tem melhores reflexos democráticos. Vemos, por exemplo, que a Suécia baniu todos os ecrãs e a tecnologia das salas de aula, e isso tem fundamento científico. Portanto, já se sabe que, na maioria dos casos, a tecnologia prejudica os resultados educativos. A Suécia reagiu e proibiu tudo, voltando a utilizar apenas papel e caneta nas salas de aula. O mesmo acontece na Itália e em França, por exemplo. Sei que, na Itália, cerca de 15 mil escolas permitem que as crianças leiam em silêncio todos os dias durante 15 a 20 minutos, para que, em primeiro lugar, aumentem a sua capacidade de concentração e, em segundo lugar, comecem a habituar-se e a mergulhar em narrativas mais longas. São, portanto, ferramentas muito pragmáticas: sem tecnologia e leitura diária em silêncio na sala de aula, o que, de certa forma, pode ajudar a reeducar os hábitos de leitura e a aumentar a capacidade de concentração.

Outro tema que está a ser debatido em muitos países por todo o mundo é se devemos, de facto, proibir as redes sociais para menores de 16 anos, o que também constitui uma discussão interessante e demonstra quão comprovado é que a exposição precoce e excessiva aos ecrãs e às redes sociais tem efeitos negativos a nível cognitivo e emocional. São todas excelentes oportunidades para a cultura da leitura e para o mercado livreiro, e os resultados do PISA são, essencialmente, um apelo à ação para que os nossos intervenientes trabalhem em conjunto.

Nessa linha, qual é, na sua opinião, a importância da literatura nestes tempos conturbados, tendo em conta que a cultura e os livros são das primeiras coisas a ser censuradas pelos regimes fascistas?

Sim, temos visto ao longo de muitos séculos de história que as autocracias abandonam o Estado de direito e a liberdade de expressão, a liberdade de escrever e de ler, a livre troca de ideias, a livre troca de conhecimento e informação, porque querem controlar o conhecimento e a informação. Infelizmente, vemos agora que isto se tornou algo muito preocupante também no mundo ocidental, e penso que é um dos muitos indicadores de que a democracia está sob pressão. Assim, voltamos a assistir a proibições de livros na América, e a ameaças a jornalistas em países europeus e a alguns escritores. Enquanto editores, temos de garantir que proporcionamos à sociedade um fórum de vozes e opiniões, com uma gama diversificada de pontos de vista. E, por isso, o nosso coração e a nossa alma, a espinha dorsal da indústria, são a liberdade de expressão e a liberdade de escrever e de ler. Sabemos que a leitura profunda gera empatia e valores humanos nas pessoas e, com isso, valores democráticos. Assim, se nos concentrarmos na cultura da leitura e na cultura do livro num país estamos, na verdade, a fortalecer e a estabilizar a democracia. Temos até provas científicas disso. Existe uma iniciativa que teve início em Lillehammer, na Noruega, chamada Fórum Mundial da Liberdade de Expressão. Realizaram testes cientificamente sólidos, inicialmente naquela cidade, que demonstraram que, se se conseguisse atrair mais pessoas para se tornarem leitores assíduos e amantes de livros, os valores democráticos acabavam por se reforçar. Está cientificamente provado que a democracia requer leitura. Creio que é algo que pretendem internacionalizar e globalizar a partir da Noruega, e é uma proposta muito empolgante.

Agora, surge a IA, e a narrativa é, mais uma vez, de ameaça existencial. Eu discordo. A IA traz muitos aspetos positivos para o mundo editorial. Como é que um manuscrito encontra o editor? A tecnologia pode ajudar nesse sentido. Como é que um leitor encontra a sua próxima melhor leitura? Os chatbots e a tecnologia podem ajudar os leitores. Desde o manuscrito até ter um livro numa livraria, passam entre 10 a 30 meses. A IA vai ajudar-nos a acelerar o processo para levar as nossas histórias ao ponto de venda

Como vê o panorama cultural atual, tendo em conta o avanço da IA? Quais são os perigos para a indústria editorial e como podem ser contidos? Existem vantagens na utilização da IA neste contexto?

É uma excelente pergunta. Quando se quer prever o futuro, é melhor compreender de onde viemos, e a grande transformação digital deste setor foi introduzida a partir dos anos 50, o que sempre contribuiu, de certa forma, para melhorar o processo editorial. Ainda assim, a verdadeira transformação digital começou há 30 anos, com a invenção do comércio eletrónico. A Amazon começou como uma livraria, em 1995. Era só uma garagem onde Jeff Bezos empacotava livros em caixas e, depois, levava-os na bagageira do carro até aos correios. Foi assim que tudo começou, com os livros. Toda a gente pensava: "Meu Deus, o comércio eletrónico vai acabar com o setor." Não, na verdade, aconteceu exatamente o contrário: aumentou o nosso alcance e a nossa seleção de livros. A Amazon tem 50 milhões de livros disponíveis. Uma livraria muito grande tem 50 mil livros. Também conseguimos chegar aos leitores muito rapidamente através do comércio eletrónico, tanto em formatos físicos como, naturalmente, em formatos digitais.

Os e-books e audiolivros em três segundos foram o segundo ponto de inflexão da nossa transformação digital. Quinze anos depois, por volta de 2010, surgiu o mercado dos e-books e audiolivros. Todos pensaram que era o fim do papel, que era o fim da edição, mas só nos beneficiou e aumentou novamente o nosso alcance e público em todo o mundo. Depois, surgiu a autopublicação, e todos disseram: "Oh, não, autopublicação, só precisamos do escritor e do leitor, as editoras já não são importantes." No entanto, só tornou as editoras mais relevantes, porque as pessoas procuram orientação, aconselhamento e qualidade para encontrarem a sua próxima melhor leitura. Para isso, precisam de curadores, que são as editoras e as livrarias. Agora, surge a IA, e a narrativa é, mais uma vez, de ameaça existencial. Eu discordo. A IA traz muitos aspetos positivos para o mundo editorial. Como é que um manuscrito encontra o editor? A tecnologia pode ajudar nesse sentido. Como é que um leitor encontra a sua próxima melhor leitura? Os chatbots e a tecnologia podem ajudar os leitores. Desde o manuscrito até ter um livro numa livraria, passam entre 10 a 30 meses. A IA vai ajudar-nos a acelerar o processo para levar as nossas histórias ao ponto de venda. Portanto, há muitas coisas positivas.

A única novidade na nossa transformação digital com a IA é que o lado criativo é afetado. Como é que evitamos que todas as histórias do mundo sejam utilizadas para treinar os modelos de IA? Os direitos de autor não estão a ser respeitados, o que significa que o valor das nossas histórias e das obras dos nossos autores não estão a ser compensados de forma justa. Os direitos de autor e o valor das nossas histórias são a força vital da indústria. Se não estiverem a ser remunerados de forma justa, estamos mesmo em apuros. Esse é o aspeto que temos de acertar no que diz respeito à IA. Há muito trabalho jurídico a decorrer neste momento para tornar isso claro e garantir que assim seja, mas creio que a IA traz mais oportunidades para a indústria do que riscos. A história dos últimos 30 anos demonstrou que os avanços tecnológicos que eram vistos como uma ameaça existencial acabaram, em última análise, por ajudar o setor editorial a atingir um novo patamar. A IA pode fazê-lo, mas temos de salvaguardar os direitos de autor.

Fiz parte de aquisições de livros em que estávamos dispostos a pagar muito dinheiro e que acabaram por não vender muito. Também estive envolvido em aquisições de livros em que pensávamos que tínhamos pagado uma quantia considerável por um projeto arriscado e venderam milhões de exemplares, o que é, claro, aquilo de que todos queremos fazer parte no mundo editorial. Queremos publicar o próximo grande autor de estreia, queremos publicar o próximo grande best-seller que surgiu do nada

Por falar em IA e em direitos de autor: esta é, talvez, uma questão um pouco controversa, mas se soubesse que um livro escrito por IA venderia milhões de exemplares, publicá-lo-ia?

Bem, antes de decidir se o publico ou não, em primeiro lugar, não sei quantos exemplares vai vender. Em segundo lugar, a indústria tem-se mostrado bastante disciplinada, tanto as editoras, como as livrarias. As editoras não querem lançar livros gerados por IA e as livrarias não querem que livros gerados por IA estejam nas suas prateleiras. Se isso for sustentável, as histórias criadas por IA terão dificuldade em encontrar um público significativo. Poderiam ser autoeditadas; vimos que, no ano passado, mais de 4 milhões de ISBNs foram publicados nos Estados Unidos. Além disso, há 15 anos, a autoedição impulsionou o número de ISBNs publicados por ano. Agora, a IA impulsiona enormemente o número de histórias que estão a ser lançadas nas prateleiras infinitas do comércio eletrónico, o que também significa que os leitores se afogam na escolha e já não se orientam. Precisam de orientação, de aconselhamento, e as editoras e as livrarias podem fazê-lo. Por isso, estou otimista. Na autopublicação, apenas alguns autores têm sucesso; a maioria acaba por entrar no mercado editorial tradicional. Isso é algo que também observamos neste contexto. A IA é, de certa forma, o próximo nível do que temos visto na autopublicação. Não partilho do receio de que a IA venha a dominar as listas de best-sellers. Neste momento, se estivesse a trabalhar na área editorial, não aceitaria um manuscrito produzido por IA. Na nossa indústria, tudo tem de começar com um ser humano e terminar com um ser humano. O toque humano é extremamente importante, especialmente do ponto de vista do conteúdo. E, entretanto, a tecnologia pode ajudar-nos a tornarmo-nos ainda melhores no que fazemos enquanto editores.

Houve alguma ocasião em que acreditasse veementemente que um livro venderia muito e mais ninguém acreditava nisso, ou vice-versa?

Dirigi, como sabe, a maior editora do mundo durante muitos anos. E, na verdade, trata-se de uma comunidade de 350 pequenas editoras. São os editores e os responsáveis editoriais dessas 350 pequenas editoras que decidem quais os livros que compram e publicam. Não tomava as decisões do dia a dia sobre os livros que publicaríamos. Durante o meu mandato, publicávamos cerca de 16 mil livros por ano em diferentes línguas por todo o mundo. No entanto, estive envolvido na aquisição de livros e histórias, na compra de manuscritos e ideias para livros, especialmente os de maior dimensão. Fiz parte de aquisições de livros em que estávamos dispostos a pagar muito dinheiro e que acabaram por não vender muito. Também estive envolvido em aquisições de livros em que pensávamos que tínhamos pagado uma quantia considerável por um projeto arriscado e venderam milhões de exemplares, o que é, claro, aquilo de que todos queremos fazer parte no mundo editorial. Queremos publicar o próximo grande autor de estreia, queremos publicar o próximo grande best-seller que surgiu do nada. Tive a sorte de fazer parte de muitos, muitos grandes sucessos, em todas as áreas, em muitas categorias. Mas também participei em aquisições de livros muito dispendiosas que, infelizmente, não atingiram o número de exemplares de que precisávamos para tornar o projeto rentável.

Contudo, é muito importante falar sobre os nossos fracassos e aceitar que somos uma empresa. É como se fossemos apaixonados por todas as histórias que lançamos ao mundo. Infelizmente, muitas, mas muitas delas, que achamos que merecem um grande público, não conseguem encontrar nenhum. Por isso, tento explicar aos nossos colegas do setor que isso faz parte do nosso modelo de negócio. É um pouco como o Vale do Silício; somos investidores anjo. Os editores e revisores são os anjos dos seus autores e das suas histórias, e é como se cada livro fosse uma nova startup. Queremos que a startup cresça, que se torne um best-seller, que entre em funcionamento e, depois, queremos que perdure para sempre, que se torne um clássico moderno. Portanto, o fracasso faz parte do nosso modelo de negócio e é quase uma parte necessária do nosso modelo de negócio.

Acho que, com o passar do tempo, a maior lição foi que os leitores são resilientes e, por serem tão resilientes, quando adotam o hábito da leitura, querem ler ainda mais em períodos conturbados, porque querem escapar à realidade. É por isso que, mesmo em períodos de crise económica, em que as pessoas estão preocupadas com o mundo em geral, com a geopolítica, com a geoeconomia e a macroeconomia, o que fazem é tentar escapar

Os livros são caros e a pirataria sempre existiu, mas talvez haja mais consciência atualmente. O que é que as editoras podem fazer para dissuadir as pessoas de descarregarem livros ilegalmente?

Sim, furtar livros não é aceitável. Mais uma vez, trata-se da questão dos direitos de autor. Temos de garantir que os criadores da nossa propriedade intelectual, os nossos autores, sejam remunerados de forma justa. O setor do livro é, no seu conjunto, um negócio de grande sucesso, que está a crescer e a passar por uma fantástica transformação digital. Nunca perdemos receitas publicitárias, porque nunca as tivemos. O mercado dos livros infantis está em crescimento. As taxas de alfabetização, especialmente no Sul global, estão a aumentar rapidamente, enquanto no Norte estão a diminuir. Há mais pessoas no planeta que sabem ler. Conseguimos chegar até elas através do comércio eletrónico e dos formatos digitais. Por isso, este negócio está muito, muito forte, e o formato impresso prevaleceu. As livrarias estão novamente em ascensão. As editoras estão a tornar-se mais rentáveis e bem-sucedidas.

Mas a verdade é que a grande maioria dos nossos autores não consegue ganhar a vida a escrever. E a pirataria – quer se trate da cópia física ou digital de um livro – reduz ainda mais a percentagem de autores que conseguem ganhar a vida a escrever. Mais uma vez, a grande maioria tem de ter um trabalho paralelo e escreve à noite. Por isso, os direitos de autor, a valorização das histórias e a disponibilidade para pagar 10 ou 15 euros por 15 horas não só de entretenimento, mas muitas vezes de experiências que mudam a vida, são algo que considero uma proposta justa quando pensamos no que custa um cappuccino ou no que custa ir ao cinema hoje em dia. Estamos a falar de um entretenimento prolongado e, mais uma vez, de uma experiência profunda e significativa. Por isso, espero que consigamos controlar a pirataria e que as editoras colaborem com os organismos do setor e, evidentemente, o governo, para garantir que os direitos de autor sejam protegidos. A pirataria é um ato de furto de propriedade intelectual e isso não é aceitável.

Quais foram as maiores lições que retirou do seu mandato enquanto CEO da Penguin Random House?

Muitas lições, todos os dias. Acho que, com o passar do tempo, a maior lição foi que os leitores são resilientes e, por serem tão resilientes, quando adotam o hábito da leitura, querem ler ainda mais em períodos conturbados, porque querem escapar à realidade. É por isso que, mesmo em períodos de crise económica, em que as pessoas estão preocupadas com o mundo em geral, com a geopolítica, com a geoeconomia e a macroeconomia, o que fazem é tentar escapar. E a resiliência dos leitores ao longo dos ciclos económicos, das disrupções digitais, da invenção da Internet e das redes sociais… A maior lição que tirei foi o quão brilhante é este negócio. É extremamente resiliente e só cresce porque os nossos leitores são resilientes. Isso inspirou-me a dar início a uma digressão mundial sobre os melhores tempos da edição desde Gutenberg, há nove anos, e a recolher dados de todo o mundo que sustentem a ideia de que vivemos, de facto, no melhor período para o mercado livreiro e que devemos fazer com que todos se tornem leitores para toda a vida. Se fizermos isso, se alcançarmos esse objetivo de transformar todas as pessoas em leitores para toda a vida, não estaremos apenas a fazer algo grandioso pela indústria e pela sociedade; será também um ato de bondade para com a democracia. Os livros podem ajudar e contribuir para salvar o mundo. Por isso, encorajo-vos a serem não só leitores ao longo da vida, mas também a defenderem a leitura e os livros, e a serem promotores deste período maravilhoso na edição de livros. Se o fizerem, estarão a apoiar a nossa sociedade, a cidadania ativa e, na verdade, a ajudar a estabilizar a nossa democracia.

Antigo líder da Penguin prevê "tsunami analógico" com regresso aos livros

O antigo diretor-executivo da Penguin Random House Markus Dohle considera que a "fadiga" das redes sociais está a provocar uma reaproximação aos livros e antevê um "tsunami analógico", que representa uma oportunidade para editores e livreiros conquistarem novos leitores.

Lusa | 15:13 - 15/09/2026

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