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June Freedom e as raízes cabo-verdianas de música feita de vários mundos

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                    June Freedom e as raízes cabo-verdianas de música feita de vários mundos
June Freedom e as raízes cabo-verdianas de música feita de vários mundos (Foto: Reprodução)

"Ser cabo-verdiano é ser um pouco de tudo", afirma June Freedom, que nasceu nos Estados Unidos, cresceu entre os dois países e vê nessa mistura de culturas a própria definição da identidade cabo-verdiana: "É um mestiço que é do mundo", diz em entrevista à Lusa.

 

Atualmente, June Freedom é o artista cabo-verdiano com maior número de ouvintes mensais no Spotify, cerca de 794 mil, enquanto o seu catálogo ultrapassa os 233 milhões de reproduções na plataforma. O tema "YSL" supera os 80 milhões de 'streams'.

Mas, antes dos números, houve o Tropical Club, restaurante que a mãe mantém há 26 anos na ilha do Fogo e onde, entre os 10 e os 15 anos, June Freedom cantava aos fins de semana com bandas ao vivo.

"Todas as minhas escolhas de um 'beat', de um tema ou de como cantar num som vêm das mornas e coladeiras do restaurante da minha mãe", conta o músico, que considera essas experiências a "fundação" do seu estilo.

A passagem pela música cabo-verdiana começou também pela admiração pelo cantor Ildo Lobo, um "ídolo" que conheceu quando atuou perto do restaurante da mãe. June Freedom tornou-se então um admirador assumido do artista, chegando a usar a mesma boina e a interpretar as suas canções.

"Eu fiquei, tipo, obcecado, queria cantar como ele, queria vestir como ele, a boina que ele vestia, eu vestia também, e eu comecei a cantar as músicas dele", conta.

Foi nesse contexto que, aos 12 anos, representou Cabo Verde em Fátima e Ourém, em Portugal, numa experiência que considera decisiva para o início da carreira. Anos mais tarde, já nos Estados Unidos, abriu os últimos concertos de Lobo naquele país.

A identidade cabo-verdiana continua presente na forma como compõe e produz, embora a música tenha incorporado as influências que foi encontrando nos Estados Unidos.

O próprio nome artístico encerra uma história de família e de liberdade. "June" vem de Júnior: o músico chama-se Pedro Paulo e é filho de Pedro, tendo sido tratado desde sempre por Junior. Já "Freedom" nasceu de uma conversa com um primo, depois de este lhe dizer que, quando pegava na guitarra, parecia sentir-se mais livre.

A ideia de liberdade ganhou entretanto um significado mais profundo. "A liberdade para mim é mesmo fazer a música", afirma June Freedom, que diz sentir-se por vezes "em prisão, mentalmente", perante o que está a acontecer no mundo.

O músico, que vive há mais de uma década em Los Angeles, fala de um ambiente cada vez mais pesado, nos Estados Unidos, mas também nos diferentes lugares por onde passa.

June Freedom relaciona essa mudança também com a evolução tecnológica e das redes sociais. Recorda a adolescência, quando ainda não existiam as plataformas digitais com a dimensão atual, e considera que a tecnologia trouxe novas formas de ansiedade e medo, mundo contemporâneo sobre o qual pretende falar em alguns dos próximos projeto.

June Freedom canta em crioulo, inglês, português e espanhol e rejeita a ideia de produzir segundo uma fórmula destinada a determinado mercado.

Defende que as canções devem nascer de experiências e histórias reais, ideia presente no novo single, "Dance Again", colaboração com a cantora espanhola Eva Ruiz, natural das Canárias. A coincidência das duas experiências insulares foi uma das razões que aproximou os artistas.

O músico prepara, entretanto, uma sequência de novos lançamentos.

Entre as colaborações em preparação está uma nova música com Nelson Freitas, outra com Dino D'Santiago, enquanto Mayra Andrade, Tito Paris e o português Slow J estão entre os artistas com quem gostaria de voltar a trabalhar ou colaborar.

"Para sentir Cabo Verde e para sentir o mundo", resume, numa relação com as raízes que diz ter mudado ao longo dos anos. Quando era mais novo, queria sair da ilha do Fogo e conhecer o mundo; hoje, depois de viver nos Estados Unidos e viajar pela Europa, sente cada vez mais vontade de regressar.

"Agora estou sempre nessa idade em que quero voltar para casa, voltar para as raízes e para coisas que me fazem bem na alma", afirma.

O músico de 38 anos também mantêm uma ligação regular a Portugal. E regressa em breve para trabalhar em novos projetos e deixa a promessa de voltar a subir aos palcos lusos em 2027.

"Nu Bai", expressão crioula que traduz o português "vamos lá", é o seu mote de vida, reforçado desde o último Mundial de Futebol.

"Quando vi Cabo Verde a jogar com a Espanha, toda a gente era 'Nu Bai', era vamos, vamos com tudo", recorda June Freedom, que acompanhou presencialmente os jogos da seleção no Mundial.

"Nu Bai" é assim, uma das expressões que mais usa do crioulo — uma espécie de 'afrobeat' que, para o músico, junta a identidade cabo-verdiana, a música e o sentimento de pertença a uma comunidade espalhada pelo mundo.

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