Escritor revelação da rentrée literária em França nega ter usado IA
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"Sempre gostei da criação e da escrita, não vejo por que razão recorreria a uma máquina", reagiu o autor, em declarações ao jornal Libération, afirmando estar "a constituir um dossiê", juntamente com os seus editores, "para provar" que foi ele quem escreveu a obra.
O autor, de 38 anos, tem sido alvo de ataques na sequência de acusações lançadas na segunda-feira pela conta anónima "Balance ton Claude", na rede social X, até então praticamente desconhecida e com 92 seguidores, que afirmou que o romance tinha sido escrito "quase integralmente" por Inteligência Artificial.
A conta indica ainda ter utilizado o programa norte-americano de deteção Pangram para analisar excertos da obra, que já conquistou o prémio Romance Fnac 2026 e vendeu mais de 35 mil exemplares, segundo o Le Figaro.
Segundo a AFP, não foi possível verificar a identidade da pessoa por detrás da conta.
Esta publicação foi posteriormente partilhada mais de mil vezes e acumulou mais de três milhões de visualizações.
"As minhas tradições são haitianas e caribenhas. As imagens, as repetições e os ritmos são uma palavra viva, são meus", acrescentou o autor, que é publicado em França pela Grasset.
Num comunicado enviado à AFP, a editora manifestou-se "firmemente contra quaisquer afirmações mal-intencionadas que sustentem de forma categórica que o livro teria sido alimentado ou escrito por uma IA, e que ferem terrivelmente um escritor com um percurso excecional".
A Boréal, editora que publicou originalmente o romance no Canadá, na primavera, disse à AFP ter "tomado conhecimento das alegações" e não as "encarar de ânimo leve", manifestando, contudo, a sua "confiança no trabalho de Thélyson Orélien".
"C'était ça ou mourir" é um dos sucessos da 'rentrée' literária da Grasset, que foi preparada pelo presidente executivo Olivier Nora antes de este ter sido afastado, em abril, pela direção da Hachette, a maior editora francesa (a que pertence a Grasset), integrada na esfera do multimilionário conservador Vincent Bolloré.
Na altura, Thélyson Orélien manifestou publicamente o seu apoio a Olivier Nora.
"Não escrevi este romance com a cabeça, mas com as entranhas e o coração", afirmou recentemente o autor à AFP, explicando ter conversado com numerosos haitianos que viveram a experiência do exílio.
No romance, conta, na primeira pessoa, a história de Jonas Dorléon, um professor de História e Geografia que foge do seu país, mergulhado na violência dos gangues.
Começa então uma perigosa viagem através de 12 países até chegar ao Canadá.
As acusações da conta "Balance ton Claude" foram lançadas na segunda-feira, no mesmo dia em que o escritor recebeu o Prémio Fnac de melhor romance.
O livro integra também as seleções dos principais prémios literários franceses, entre os quais o Goncourt, o Médicis e o Femina.
A AFP submeteu os excertos selecionados pela conta do X a outros detetores, obtendo resultados diferentes.
Com a ferramenta de verificação InVID-WeVerify, cocriada pela AFP, a avaliação indica que essas passagens foram "muito provavelmente escritas por um ser humano".
As conclusões de outros sete detetores - Winston AI, detecting-ai.com, app.its-ai.org, detectgpt.com, isgen.ai, copyleaks.com e ghostbuster.app -, também testados pela AFP, são divergentes.
Um deles concluiu existir uma probabilidade de 100% de essas passagens serem obra de uma IA (app.its-ai.org), enquanto outros dois chegaram à conclusão inversa (detectgpt.com e isgen.ai).
Outros dois detetores apontaram probabilidades de escrita por IA entre 7% e 59% (detecting-ai.com e ghostbuster.app).
Os dois restantes (Winston AI e copyleaks.com) concluíram existir, respetivamente, 53% e 100% de probabilidade de uma das passagens ter sido gerada por IA e 0% relativamente à outra.
Para Denis Teyssou, responsável pelo Medialab da AFP, "a deteção de textos é muito mais aleatória" do que a deteção de imagens.
Isto porque, se os geradores de imagens deixam vestígios ou utilizam 'watermarking' (marca de água digital), "um texto são apenas palavras e pontuação. Não há processamento de sinal no texto, há apenas uma distribuição estatística de palavras", utilizada para determinar a probabilidade da existência de vestígios de IA, acrescentou.
O Pangram "nunca deveria ser o árbitro final", devendo antes funcionar como ponto de partida para uma investigação mais aprofundada, sublinhou o presidente executivo e cofundador da ferramenta, Max Spero, em declarações à revista norte-americana The Atlantic, num artigo publicado em maio.
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