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"A legitimação da violência assusta. Em 50 anos quebrou-se muita coisa"

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"A legitimação da violência assusta. Em 50 anos quebrou-se muita coisa" (Foto: Reprodução)

Além de ser um verso de António Ramos Rosa, "Sou uma Multidão Minúscula" deu nome ao novo livro de Susana Amaro Velho, no qual a protagonista é, em dois momentos da sua vida, confrontada com a violência que "atravessa gerações". Isto porque, conforme adiantou a autora ao Notícias ao Minuto, "cabem nela todas as histórias passadas, todos os ensinamentos e traumas", sendo que "a memória alimenta esta transmissão geracional a que não consegue fugir".

 

A trama arranca em 1971, altura em que a infância de Margarida ainda nutre uma camada de proteção. Contudo, por detrás das portas do casarão onde vive, reina a brutalidade. Todos sabem, mas ninguém se atreve a intervir.

Anos mais tarde, em 1994, deparamo-nos com uma Margarida já viúva, mãe de dois filhos e três empregos. A memória da violência volta a encontrá-la, numa tentativa de "levar o leitor a questionar-se sobre a falha das instituições, os julgamentos de terceiros, a carência de apoios". Aliás, como recordou Susana Amaro Velho, "a violência doméstica é crime público desde 2000 e continua a ser desvalorizada".

Apesar de considerar que "a legitimação de comportamentos violentos é assustadora", em particular na conjuntura atual, a autora vincou que "cada geração tem de voltar a fazer esse trabalho, sobretudo quando encaramos um retrocesso de valores", tendo em conta que "em 50 anos quebrou-se muita coisa".

Uma mãe ensina à filha aquilo que a ajudou a aguentar-se e encara-o como uma conquista, mesmo que seja conformismo. A UMAR ouviu este ano oito mil alunos com uma média de 15 anos e quatro em cada dez rapazes não consideram violência proibir o outro de vestir determinada roupa. Aliás, a legitimação de comportamentos violentos é assustadora. Em 50 anos quebrou-se muita coisa

"Sou uma Multidão Minúscula" é um verso de António Ramos Rosa, um poeta que "tornou a poesia indispensável aos [seus] dias". Em que momento é que decidiu que a frase condensava a história de Margarida?

Este verso já vivia comigo antes de imaginar o livro. Percebi que era o título certo quando a protagonista, já adulta, começa a reagir com gestos que eram da mãe e de Elvira, repetindo-os, mantendo o ciclo vivo. É uma mulher com três empregos e dois filhos, em quem ninguém repara, banalíssima na sua rotina, e traz essa gente toda dentro do peito. Walt Whitman escreveu que continha multidões e disse-o com orgulho, refletindo a imensidão da própria humanidade. No verso de António Ramos Rosa a multidão é minúscula, e isso está muito mais perto da Margarida e da sua verdade. Cabem nela todas as histórias passadas, todos os ensinamentos e traumas; a memória alimenta esta transmissão geracional a que não consegue fugir. Minúscula é intimidade e vulnerabilidade. No livro é Elvira quem a incentiva a mergulhar na poesia, e pareceu-me certo ir buscar o título a um poeta. Sendo, simultaneamente, uma bonita homenagem. 

O livro está separado entre dois períodos: 1971 e 1994. Porquê? Pretendia mostrar que, apesar dos avanços sociais, as mulheres continuam sujeitas ao mesmo tempo de violência de outrora?

Escolhi as datas sobretudo pela Lei aplicável em cada um dos períodos. Em 1971 o Código Civil afirmava que o marido era o chefe da família e que a mulher lhe devia obediência, e quem tinha casado pela Igreja não se podia divorciar, o que só mudou em 1975. Elvira não tinha para onde ir, não podia abandonar o lar; não se pode confundir falta de alternativa com submissão. Em 1994 já tínhamos passado por uma revolução e uma nova Constituição, mas o Código Penal ainda arrumava os crimes sexuais entre os crimes contra os valores da sociedade, não pessoas. A violência do livro não é a mesma nas duas datas. O que me interessou comparar foi o que está à volta dela, quem sabe e se cala, e quem decide agir, a ideia de segredo público. 

A obra fez-me pensar várias vezes na questão de "nature versus nurture". Estamos condenados a repetir os erros dos nossos antepassados? Está-nos no ADN, ou é possível quebrar o ciclo?

Não acredito que esteja no ADN e quero acreditar que conseguimos quebrar o ciclo, ainda que o caminho seja longo e não se resolva, muitas vezes, na geração seguinte. Acredito também que aquilo que é ensinado em casa, muitas vezes por mulheres e muitas vezes por amor, está tão intrinsecamente cravado que, muitas vezes, só damos pela repetição depois do erro; é quase inconsciente. Uma mãe ensina à filha aquilo que a ajudou a aguentar-se e encara-o como uma conquista, mesmo que seja conformismo. A UMAR - União de Mulheres Alternativa e Resposta ouviu este ano oito mil alunos com uma média de 15 anos e quatro em cada dez rapazes não consideram violência proibir o outro de vestir determinada roupa. Aliás, a legitimação de comportamentos violentos é assustadora. Em 50 anos quebrou-se muita coisa, e cada geração tem de voltar a fazer esse trabalho, sobretudo quando encaramos um retrocesso de valores. 

Não quis escrever um livro impressionista, mas é essencial que cause desconforto. As cenas de violência partem daí, quem ouve e quem vê o dia seguinte, porque me interessa mais o impacto que tem na construção das personagens, nas relações familiares que se estabelecem, do que a descrição das pancadas

A violência a que Margarida é exposta, tanto em criança como em adulta, leva-a quase a cometer atos de loucura de índole criminosa, tanto nos anos 70 como nos anos 90. O que é que pretendia expor com ambas as situações?

Não lhe chamo loucura. Nos dois momentos, a Margarida é obrigada a fazer contas, a avaliar as consequências, e conclui que ninguém fará nada por ela. É a velha ideia do contrato, em que o Estado me retira o direito de agir pelas próprias mãos e se oferece para fazer justiça por mim. Quando o Estado não cumpre, o que é que sobra? Quis levar o leitor a questionar-se sobre a falha das instituições, os julgamentos de terceiros, a carência de apoios. No lugar dela, o que faríamos se tudo o resto falhasse? O Observatório de Mulheres Assassinadas diz que em 80% dos femicídios havia violência anterior de que outras pessoas sabiam e que, muitas vezes, existia até denúncia prévia. A violência doméstica é crime público desde 2000 e continua a ser desvalorizada. Na aldeia do livro também toda a gente sabe. Em 1994 pesa outra coisa, o medo de ser ela a acusada de negligência. Eu não a absolvo nem a condeno, e o livro também não.

Como é que foi o processo de escrita deste livro e, em particular, das cenas de violência? Inspirou-se noutras obras, ou até mesmo em casos reais?

Em 1971 a Margarida dorme no quarto por baixo do da Elvira e ouve tudo, imagina as cenas. Não quis escrever um livro impressionista, mas é essencial que cause desconforto. As cenas de violência partem daí, quem ouve e quem vê o dia seguinte, porque me interessa mais o impacto que tem na construção das personagens, nas relações familiares que se estabelecem, do que a descrição das pancadas. Li Neige Sinno, que em Triste Tigre conta os anos em que foi violada pelo padrasto sem poupar o leitor e sem lhe dar uma história de superação, e é naturalmente difícil. Se choca? Claro. Mas também há toda uma abordagem profunda e obsessiva sobre a mente do agressor. Tentei preparar o leitor para que as cenas surgissem com contenção e equilíbrio, sem imagens de violência gratuitas. Não me inspirei num caso concreto, mas basta abrir o jornal em qualquer semana.

Desconfio dos finais que arrumam tudo, servem sobretudo para o leitor dormir descansado, e eu acredito em leitores que sabem somar dois mais dois. No epílogo passaram trinta anos e o leitor não tem pistas sobre o que aconteceu a cada uma das personagens durante esse tempo, por onde andou e em quem se tornou. A Margarida também não sabe. Criamos os nossos filhos e, mais tarde, não mandamos na vida deles nem nos perigos que vão encontrar

Se o enredo ocorresse em 2026, o que mudaria ou acrescentaria na trama?

A Margarida de 2026 teria uma linha de apoio para onde ligar e a lei do lado dela, porque hoje estes crimes são públicos e qualquer pessoa os pode denunciar, ainda que a resolução dos casos seja discutível. Acrescentaria também, necessariamente, o telemóvel como extensão das personagens Luciano e Diogo; é onde hoje se aprende muita coisa, e também se desaprende. As redes sociais amplificam a estupidez humana e enquanto puder afastar as minhas histórias desta doença do século, que é a de viver vidrado num ecrã – da criança de dois anos ao adolescente que come de auriculares no almoço de aniversário do avô – assim farei. E talvez a aldeia passasse a prédio ou grupo de WhatsApp, com a mesma gente que sabe tudo, ou pensa saber, e não diz nada, condenando nas costas. Não é assim que se passa? 

A história tem dois finais: um para os leitores mais otimistas e outro que nos deixa em suspenso. Porque é que optou por esta via? Afinal, a vida nem sempre tem finais felizes.

O livro podia acabar em 1994 e quem quiser pode ficar por aí. Eu quis ir mais longe, decidi arriscar. Desconfio dos finais que arrumam tudo, servem sobretudo para o leitor dormir descansado, e eu acredito em leitores que sabem somar dois mais dois. No epílogo passaram trinta anos e o leitor não tem pistas sobre o que aconteceu a cada uma das personagens durante esse tempo, por onde andou e em quem se tornou. A Margarida também não sabe. Criamos os nossos filhos e, mais tarde, não mandamos na vida deles nem nos perigos que vão encontrar. É um final arriscado mas escolhi-o porque a herança emocional não se interrompe. Ou interrompe? 

Capa de "Sou uma Multidão Minúscula"© Susana Amaro Velho/Reprodução  

Que importância teve para si, enquanto escritora e leitora, ter uma frase de Rosa Montero na capa de "Sou uma Multidão Minúscula"?

Leio Rosa Montero há muitos anos, pela prosa e sobretudo pela maneira como monta os livros, com histórias que parecem separadas e acabam por assentar nas mesmas dores. Foi com ela que percebi que a estrutura também conta a história e ter o nome dela na capa é uma imensa honra. Fiquei muito feliz quando, com toda a generosidade, aceitou o meu convite. 

Numa das últimas vezes em que conversámos, mencionou estar a trabalhar numa obra com um protagonista do sexo masculino, pela primeira vez. Ainda está em andamento? Que outros trabalhos tem em mãos?

Está, sim. Tenho sempre imensos projetos iniciados, ideias soltas em cadernos. Se passam a ser mais do que isso? Nem sempre. Neste momento, estou numa fase de leitura e investigação mais intensa a propósito do livro em que estou a trabalhar. 

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Daniela Filipe | 08:00 - 01/09/2026

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